A Difamação do parto

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Olá, querid@s! Este vídeo foi criado para uma disciplina na minha faculdade no semestre retrasado, mas hoje decidi compartilhar. Espero que gostem e que seja útil.

Rompimento artificial da bolsa–da série Rotinas do parto normal: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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Sim, eu sei. Eu sumi. Mas meu ultimo semestre foi bem agitado. Mas lembro do blog todos os dias. Eu já estou de 23 semanas do terceirinho, quem vem é o Felipe. E quando o projeto Rotinas do Parto Normal começou ele era apenas vaga idéia! A boa notícia é que, a pessoa que me inspirou a começar essa série deu à luz uma linda menina, de parto natural, no hospital divina Providência em Porto Alegre! Parto lindo, sem lacerações e o principal, ela adorou!

 

saco_amniotico

Fonte: http://bebeatual.com/artimg/saco_amniotico.jpg

 

Conforme as Recomendações da OMS para atendimento ao parto natural, o uso rotineiro de amniotomia precoce durante o início do TP está no grupo C – Condutas frequentemente utilizadas de forma inapropriadas.

Eu pensei em começar com uma descrição detalhada da bolsa amniótica e suas funções. Mas achei este post da Adele Doula que é super esclarecedor e tem ótima imagens! Então vou manter o foco no intervenção em si, no rompimento artificial da Bolsa. Leia com atenção. E note, bolsa é uma anexo embrionário distinto de placenta. O bebê fica dentro da bolsa. Ela contém o líquido amniótico. A placenta liga o bebê ao útero. O bebê não está dentro da placenta. Ele fica na outra extremidade do cordão umbilical.

Primeiro vamos recordar que, no imaginário popular, os partos começam com uma enxurrada da bolsa rompendo. Na verdade, não é exatamente assim. A maioria das mulheres entra em trabalho de parto sem que a bolsa se rompa. Esta irá romper-se durante o TP, à medida que o colo dilata. Outras teram o rompimento da bolsa e não sentirão contrações (essa, aliás, é uma desculpinha esfarrapada pra cesárea). Mas a maioria entrará em TP nas horas seguintes. Outro extremo é quando a bolsa não rompe e o bebê nasce dentro da bolsinha, empelicado. Era sinal de sorte isso, no tempo das nossas bisavós.

Ai eu pergunto… se nasce na bolsa, pra que romper? Beeeeem, há quem diga que romper a bolsa abrevia a duração do trabalho de parto. Há quem diga que as contrações ficam mais intensas. Mas, pra que abreviar o trabalho de parto, se estiver tudo bem (além de desocupar o leito para a próxima, por que a fila anda…)?

Poderiam romper para constatar a presença de mecônio, mas existem instrumentos que permitem esta observação com a bolsa intacta. Ademais, se os batimentos cardiacos fetais estiverem bem, pra que espiar se tem ou não mecônio, já que o problema da presença de mecônio seria justamente um quadro de hipóxia fetal, que seria caracterizado prioritariamente pelas alterações nos batimentos?

Porém, como é quase impossível que em um atendimento convencional a equipe esteja ali e não faca nada, romper a bolsa é uma das intervenções favoritas. Ok, e qual o problema em romper, se ela romperia naturalmente (ou não ) durante o TP?

Uma das principais funções da bolsa é impedir a entrada de microorganismos patogênicos no ambiente uterino, evitar que estes tenham contato com o bebê. Uma vez rompida, o bebê ficaria mais suscetível (assim, ficam ainda menos recomendados os exames de toque e, caso sejam executados, muito cuidado com a higiene para não servir como vetor). A outra é absorção de impacto. Assim, há quem diga que sentiu mais intensamente os movimentos do bebê e as contrações após o rompimento (no meu caso, não acho que tenha mudado muito, não lembro de doerem mais por isso, mas também a bolsa rompeu já no expulsivo, quando as contrações não costumam mais ser dolorosas). Além de tudo, o líquido ajuda a evitar a compressão do crodão entre o corpo do bebê e as paredes uterinas, diminuindo a chance de alterações dos batimentos cardíacos fetais. Mas o principal perigo é de ocorrer o temido prolapso de cordão. E este perigo é maior quando o bebê está “alto”.

Bem, esta é uma das verdadeiras emergências obstétricas, uma das poucas indicações verdadeiras para cesariana. Ocorre quando uma alça do cordão umbilical sai do útero, entrando no canal vaginal antes do bebê. É extremamente complicado por que se a cabeça do bebê entrar também, vai comprimir essa alça de cordão e cortar o fluxo sanguíneo que nutre e oxigena o feto. No blog da Obstetra Melânia você encontra mais informações sobre como este procedimento é feito de maneira errada e sem indicação.

O procedimento em si é indolor e é utilizado um instrumento comprido com um ganchinho na ponta para proceder o furinho. No meu primeiro parto, quando minhas contrações pararam, eu pedi que o médico rompesse minha bolsa. Mal sabia eu que era apenas o momento em que meu corpo estava se recuperando, resgatando energias para o expulsivo. Deu tudo certo, não tivemos problemas, mas depois eu fiquei pensando na necessidade daquilo. Pra que romper a bolsa? No segundo ela rompeu sozinha, já no auge do TP.

Tá, Cynara… Mas e quando a bolsa rompe antes, é o que costumam chamar de parto seco? Então… Na verdade parto seco não existe. Porque o líquido amniótico continua sendo produzido (aliás, boa parte desse líquido é composta pela urina do próprio feto).

Era isso. Espero ter ajudado. Você pode incluir essa questão do rompimento das membranas amnióticas no seu plano de parto e conversar sobre isso com sua equipe, para deixar claro quais são as circunstâncias em que eles costumam fazer e em quais delas você aceitaria o procedimento (ou não).

“Não existe evidência de que a amniotomia praticada durante o trabalho de parto esteja relacionada à abreviação do período de dilatação. Embora alguns estudos observem redução da duração do trabalho de parto, outros, de semelhante força de evidência, não observam tais achados.”

http://www.projetodiretrizes.org.br/ans/diretrizes/assistencia_ao_trabalho_de_parto.pdf

IMOBILIZAÇÃO–da série Rotinas do parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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fotos-de-parto-normal

Olá, gente! Vamos continuar nossa série sobre rotinas hospitalares do parto Normal? O próximo item da lista é a restrição de movimentos que ocorre na maior parte dos hospitais. Os motivos alegados são muitos, desde falta de espaço, privacidade da parturiente no leito ao lado, até necessidade de ficar parada por causa de exames ou aparelhos. Em alguns hospitais, não há restrição específica sobre a deambulação durante o trabalho de parto (fora a cara feia das enfermeiras achando que você está atrapalhando ali no meio do corredor). Porém, na hora do expulsivo, a mulher é conduzida para a sala de parto e lá é colocada deitada, de costas, com as pernas em perneiras, muitas vezes amarradas. Vamos falar sobre os problemas da imobilização em ambos os casos e das vantagens de estar em movimento ou com liberdade para escolher a melhor posição (calma, não significa ficar na esteira o trabalho de parto inteiro, rsrs).

caminhando para o parto normal

Dilatação e gravidade: o caminho é para baixo!

Como o colo do útero dilata? Na verdade ele dilata através de uma tração das bordas do colo, promovida pelo encurtamento das fibras da parede do útero, além do estímulo mecânico da cabeça do bebê, empurrada contra o colo pelo fundo uterino. Existe uma força amiga, natural e incrível chamada força da gravidade. Ela puxa os corpos para baixo. Se você está em posição verticalizada (de pé, sentada, acocorada, de joelhos) o caminho do bebê é exatamente este, para baixo. Assim, além da força das contrações, ganhamos uma aliada, a universal força da gravidade! Consequentemente, a força resultante sobre o colo é maior logo, é de se esperar e compreender que a dilatação ocorra mais rápido. E deitada? Deitada ela empurra teu bebê na direção das tuas costas. Opa! Caminho errado!

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Não só errado como perigoso. Por trás do útero passam os grandes vasos que trazem o aporte sanguíneo para a placenta. É por estes grandes vasos que o oxigênio vem para o bebê no útero. Ao deitar, a gravidade empurra o peso do bebê e do útero sobre esses vasos, causando uma compressão dos mesmos, o que irá reduzir o fluxo sanguíneo.

Menos sangue = menos oxigênio para o bebê = variações nos batimentos cardíacos = sofrimento fetal

Daí decorrem diversas complicações, novamente fabricadas, nesse caso, pela posição nada inteligente que é ficar deitada: dilatação mais lenta, coloca ocitocina! Ocitocina sintética intensifica as contrações, reduz a oxigenação, como já conversamos no post sobre o sorinho. Mas o sorinho também altera os batimentos cardíacos fetais! E o peso do útero nos grandes vasos também! Coloca no Cardiotocógrafo pra monitorar e assim a mulher vai ficando cada vez mais imobilizada e soterrada por equipamentos para monitorar e corrigir o que a própria imobilização causou. Além de tudo, pelos relatos e pela minha experiência, a posição mais incômoda para se ficar em trabalho de parto é justamente deitada! Além de doer mais (muito, muito mais para mim, beirando o insuportável, ao passo que em posições verticais era completamente aceitável), o volume e peso uterinos comprimem o diafragma, músculo responsável pela respiração, o que pode causar falta de ar, tontura e ah! Claro! Falta de oxigenação para o bebê, que respira, afinal, graças aos pulmões da mãe.

SE eles conseguirem chegar ao período expulsivo sob essas condições, antes de um diagnóstico de sofrimento fetal agudo (ou melhor, batimentos cardíacos fetais não tranquilizadores) e indicação de cesariana, vamos para o próximo item.

A expulsão: para baixo e além!

Chegou a hora de expulsivo. O bebê vai nascer. Talvez vocÊs tenham superado todas as adversidades citadas acima (a natureza é realmente incrível e consegue se superar mesmo com tanta gente atrapalhando, não é mesmo?). Você sabe tudo o que acontece com os ossos do quadril, a movimentação da cabeça do bebê, todo o incrível mecanismo que tem dado tão certo ao longo de mais de 10000 anos de história humana na terra?

perceba como é um movimento natural, a favor da gravidade   X   Note com de C para D o bebÊ precisa subir, movendo-se contra a gravidade

Ao término da dilatação, vagina e útero formal um túnel contínuo. A cabeça do bebê e seus ossinhos móveis e flexíveis (graças às moleirinhas ou fontanelas) vem descendo, de ladinho, mergulhando na bacia da mãe. Aí ele vai girando e se arrumando de forma que a nuca do bebê vai se encaixar no ossinho do púbis da mãe, aquele ossinho que fica bem ali sob os pelos pubianos. Justamente ali o canal vaginal faz uma curvinha para frente. Na parte de trás do quadril estã o sacro e o cóccix, que compõe o finalzinho da nossa coluna vertebral e também se curvam pra frente. Habitualmente, esses ossos são fixos, imóveis, não são articuláveis, assim como a sínfise púbica, que é a parte central do ossinho da frente. MAs na gestação, sob ação de um hormônio chamado relaxina, essas articulações adquirem mobilidade! Não é genial? Quando o bebê, com a nuca encaixada no púbis flexiona a cabecinha para trás, usa esse ossinho como apoio para uma alavanca que o vai empurrar para fora! Ao mesmo tempo, para facilitar a passagem dele, o cóccix se flexiona para trás! Simples assim: www.youtube.com/watch?v=bHIIxpw3tzY Então olha só, quanta coisa envolvida pra ajudar o bebê a sair:

  1. A alavanca da nuca do bebê x púbis materno
  2. A flexão do cóccix para trás
  3. A contração do útero
  4. A força da gravidade

Estudos radiológicos do início do século passado demonstraram que há um aumento de 20% no tamamanho do vão central da bacia da mulher quando esta está de cócoras. Mas, a despeito de tudo o que a natureza trabalhou para desenvolver, a parturiente entra na sala de parto e a deitam de costas. Pra completar o desconforto, colocam as pernas dela para cima e muitas vezes, amarram. Essa posição impede que muita coisa aconteça. Impede que ocorra a flexão do cóccix, impede que haja ajuda da gravidade (e de fato, nesta posição ela atrapalha pois além de promover a compressão dos grandes vasos que citamos antes, vai ser uma força a mais para o bebê vencer pois o canal vaginal, projetado para frente, nessa posição fica para cima, fazendo com que o bebê tenha que subir para depois sair!), impede que a mulher veja, toque, ampare, pegue seu filho ao nascer, promove maior pressão contra a parte posterior do períneo (ao invés de distribuí-la uniformemente por todo o assoalho pélvico) favorecendo lacerações. Então. POR QUE DEITAM A MULHER AFINAL?

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Ué, gente, pra facilitar o trabalho do médico. Assim, deitadinha, perninhas amarradas bem abertinhas, é muito mais fácil pra ele, o médico, o protagonista, o cara que FAZ o parto, ficar confortavelmente sentadinho em um banquinho assistindo de camarote o milagre da vida acontecer APESAR de tudo o que fazem para atrapalhar. E não só isso. Como é ele quem FAZ, precisa ajudar o evento, superando as dificuldades CRIADAS através de intervenções invasivas, violentas e na maior parte das vezes, desnecessárias. Pra ajudar o útero a empurrar o bebê, a barriga da mulher é pressionada em uma manobra perigosa e violenta chamada Kristeller, enquanto a equipe em coro ordena aos gritos que a mulher faça força (afinal, é só isso o que precisa fazer e nem isso faz direito). Para tirar logo o bebê do canal vaginal assassino, pois ele está com pouca oxigenação, usam o fórceps. Para PROTEJER o períneo sobrecarregado pela pressão da ocitocina, da posição inadequada, da força conduzida e do kristeller, CORTAM a vagina de TODAS as mulheres que parem por suas mãos. Depois concertam os estragos, costurando direitinho e se for bem machista, ainda vai fazer uma piadinha sem graça sobre um pontinho a mais para garantir que o playgroud do maridinho volte pra casa novinho em folha. Ufa! Parto feito, missão cumprida.

E na maca, uma mulher jaz em pedaços, violada, violentada, ferida. MAs o prêmio está em seus braços. Seu bebê é saudável, portanto, “pare de reclamar e fique feliz. E agradeça ao doutor, que salvou sua vida e a de seu bebê. O que seria de vocês sem ele?”. Assim elas se calam e abafam a dor, sem serem compreendidas, sem que o mundo perceba que ela teve seu momento roubado.

A OMS recomenda que se estimule a livre movimentação durante o trabalho de parto e durante o período expulsivo. E classifica a posição de litotomia de rotina como ineficaz, prejudicial e que deveria ser eliminada. Afinal, por que continuamos permitindo que nos deitem?

Relato do Parto de Vinicíus–Domiciliar

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Gente, meu pinguinho fez dois anos esse fim de semana!!! E como comemoração, decidi publicar o relato, feito três meses depois. Eu sei, está enorme e olha que eu cortei trechos. Infelizmente, não tenho fotos do parto. Só uma, essa aqui:

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I – Planejando
Após o nascimento do meu primeiro filho, João Vítor, de forma “humanizada”, no HU, em floripa, encantanda com tudo o que acontecera, empolgada com todas as descobertas que fiz durante a gestação, continuei a ler sobre o assunto, a me informar, tentando compreender por que existe tanto mito e tanto medo do parto, se ele é uma experiência tão boa, tão prazerosa.
Li muita coisa que deveria ter lido antes do nascimento do meu filho. Descobri que o parto fora ótimo pra mim, mas que pra ele, nem tanto. Compreendi que todas as intervenções que ele sofreu logo após nascer foram desnecessárias, inclusive percebi que a nossa dificuldade inicial na amamentação decorrera do afastamento após o parto, que embora breve (nem uma hora), foi o suficiente para eu receber em meus braços um bebê cansado e sonolento, que não se interessou muito em sugar.
A vontade de ter outro filho, que foi instantânea, assim que o primeiro saiu de mim, aumentou. Planejava uns cinco anos de diferença, mas quando me mudei para o sul do estado, tão perto de uma equipe que pra mim era um sonho, resolvi encomendar o rebento de uma vez. Custei a engravidar, coisa da minha cabeça, de certo, pois assim que me filho completou três anos e o desmame se completou, engravidei (14 dias depois, rs…).

II – A gestação
Assim como da primeira vez, eu sabia que estava grávida antes mesmo do atraso menstrual. No primeiro dia de atraso fiz um teste de farmácia, que confirmou o que eu sentia. Fui à UBS, falei que estava grávida e comecei o pré natal pelo SUS. Marquei minha consulta com o Ric, entrei em contato com a Zezé e com oito semanas começamos DSCF1247_20130927170020268o pré natal, que foi maravilhoso, com longas consultas cheias de conversa. Gustavo as vezes saia seguro, as vezes inseguro… verdade verdadeira é que a opção pelo PD sempre foi muito mais minha que do Gustavo. Até hoje eu me pergunto se ele não teria preferido uma cesárea com hora marcada (embora me encha de orgulho quando o vejo argumentar a favor do PN ou quando acrescenta em uma conversa que Vinícius nasceu em casa e usa fraldas de pano, rs…).
Não pude aproveitar muito minha doula querida, por que a verdade é que eu meti a cara e me enfiei nessa história de PD sem grana nem pra Belly Cast (que o Gustavo fez e ficou uma porcaria, rs…).
Zeza estava sempre nas consultas, me examinava muito carinhosamente, explicava as coisas, com um jeito sereno, parece uma mãezona mesmo, atenciosa e paciente.
Fiz três ultras no total. Uma no comecinho, por que levei um choque em um fio desencapado e precisava ver se estava tudo ok. Não vimos nada, rs… cinco semanas. A segunda foi pra ver o sexo, de tanto minha mãe me aloprar pra saber. Por fim a morfológica, que foi premiada com os comentários do ultrassonografista: “Bem, até agora, está tudo bem com o bebÊ. Temos que continuar monitorando, por que existem alguns problemas que só aparecem depois. Mas o cordão está bem longe do pescoço dele” Ãhn? Ah tá! Obrigada por me deixar tranquila…

 

 III – Plano de Parto
Enrolei, enrolei e não materializei meu plano no papel. Ele ficou no mundo das idéias mesmo. Fez diferença sim, depois pontuo onde eu acho que o plano teria me ajudado. Mas tinha que ter um plano B, um C e um D!!! aaaaahhhhh! Pirei na batatinha! Mas descolei uma autorização pra equipe me atender no açougue, ops, digo, hospital local (caso fosse necessário). Pediatra eu não achei uma até hoje e a busca cômica, pra não dizer trágica. O cara que eu contactei topou de primeira e pareceu um entusiasta da causa. Mas a verdade é que ele não sacava nada de PD e estava imaginando uma megaestrutura para emergência e transporte, se pá até um helicóptero UTI no meu quintal, rs…
Quando falei que não queria ele presente, apenas um sobreaviso (remunerado, of course), ele emburrou, me esculachou, disse que era “muito mais profissional do que um mero expectante de luxo” e desejou boa sorte. Eis aí o X da questão: a maioria dos médicos se acham meros expectantes de luxo.
Desisti de Pediatra, desisti de enlouquecer querendo deixar tudo planejadíssimo, passo a passo, tipo receita de bolo. A gestação estava chegando ao fim e me conformei que, se precisasse de transferÊncia antes da equipe ou se o bebê precisasse ser transferido, eu ia ter que estufar o peito e dar a cara a tapa em uma Emergência qualquer.

IV – Reta final
No último mês sai de Licença Gestação e me mudei. Comecei oficialmente a arrumar o ninho. Só que a gente cisma em comparar uma gestação com a outra e eu esperava entrar em TP pelas 39 semanas. Mas desde as 38 o povo já começa a encher o saco: Ai, que barriga baixa, acho que nasce logo!!! O que? Não nasceu? pRa quando é? E se passar do tempo?

 

V – Pródromos
Mas essas cobranças contagiam e eu já não atendia mais o telefone. Em vez de me desligar e deixar acontecer, comecei a agir de forma fria e calculista, ho ho ho… Fazia faxina, caminhava, fui bater fotos pra me despedir da barriga, fiz belly cast em casa, briguei com o marido, li, li, li… Comi comida apimentada, levei o filho pra andar de bicicleta, até que resolvi atacar o maridão em uma madrugada pra ver se o negócio engrenava. 39 semanas e 3 dias. Bem, passei a ter mais contrações e pela manhã começou a sair um tampãozinho… NA noite seguinte estavam até ficando boas as contrações e continuava vindo mais tampão. Só que eu dormia e passava. Prodromei por três dias e na manhã de terça feira acordei com contrações relativamente fortes, mas mantive o meu silÊncio pra ninguém me encher o saco. Era dia de consulta e tínhamos duas horas e meia de estrada pela frente. Pra completar, o pneu estava furado.DSCF1250_20130927171315661 Eu bem que pensei que o bebê nasceria em Porto Alegre. Fui de casa até o consultório cronometrando contrações. Mas quando cheguei lá, elas sumiram.
Conversamos as últimas coisinhas, Zeza me pesou, aferiu minha pressão, Ric propôs um toque, ok, lá fomos nós. Eu juro por Deus que quis quebrar o dedo da mão dele que estava apoiada no meu joelho. Doeu pra cacete. Fiquei com raiva, mas não falei nada. Um cm, bebÊ insinuado, colo anterior. Zezé notou e tentou me confortar. Sai da consulta irritadíssima, com muita cólica. Sentia vontade de chorar. Fui embora tendo muitas contrações mas me recusava a aceitar que entraria em TP por causa de um toque. Meu primeiro filho nasceu depois de um toque. Será que iria acontecer de novo? Será que eu nunca entrava em TP espontâneamente? Será que um toque seria capaz de induzir ou adiantar um parto se não fosse a hora do bebÊ? Fiquei de mau humor o resto do dia. NA viagem de volta, cheguei a ter quatro contrações em dez minutos, mas não falei nada pro Gustavo. Ele me deixou em casa e foi trabalhar. Eu limpei o banheiro de novo e fui pro chuveiro. Por que aceitei fazer o toque? Por quê???? Saí do banho e decidi ligar pra Zezé, que conversou comigo e me acalmou. Percebi que durante os dez minutos em que conversamos não senti nenhuma contração. Decidi descansar mas, por via das dúvidas, liguei pro marido encomendei uma pantufa e um tapete pro banheiro.

VI – O trabalho de Parto
Gustavo chegou e me trouxe uma pantufa que não serviu. Pediu que fosse ao mercado com ele pra trocar por outra. Levantei com raiva, querendo mandar ele pr’aquele lugar, pois queria descansar um pouco. OK, vamos lá (continuava sem contar pra ele que estava com contrações). Ao descer do carro, no estacionamento, veio uma bem forte, que me fez parar. Ele e meu filho entraram e só depois notaram minha falta. Ele voltou e perguntou o que havia. Eu disse que era só uma contraçãozinha e seguimos em frente. Escolhi um chinelo e fomos na casa da senhora que tinha pego umas roupas minhas pra lavar. O caminho era esburacado e o carro balançava. Eu cronometrava escondida, no celular. Cada buraco era um flash, rs… Viemos embora e eu continuava me esforçando pra agir naturalmente. Dei banho no meu filho, vesti o pijaminha dele, deitei na cama e fomos ler uma historinha. DSCF1259_20130927170811893Quando ele dormiu, decidi tomar um banho demorado. Ralhei com o Gustavo, chorei, falei que achava que estava em TP e que se ele quisesse, ainda dava tempo de participar. Larguei o Parto Ativo aberto na parte das massagens e fui pro banho com o celular.
Cronometrei nem sei quantas vezes, lembrava da Rebeca falando que enquanto cronometrasse é por que não era TP (detalhe era a fotinho do orkut com carinha da Rebeca falando comigo com uma vozinha que eu inventei pra ela, rs…).
Percebi que as contrações se intensificaram, notei que estava meio grogue, aérea e resolvi ligar pro meu marido (não queria gritar por ele, pra não acordar meu filho nem minha mãe). Ele veio e eu entreguei o celular pra ele cronometrar. Mas ele não sabia como fazer, quando eu perguntava a frequÊncia ele não saia dizer e aquilo foi me deixando nervosa. Eu ainda lembrava do toque. Mas percebi que era aquilo mesmo, que chegara a hora e que Vinícius iria nascer.
Saí do banho pedi para o Gustavo ligar pra Zezé. Conversei com ela, mas não consegui falar muito. Passei pro Gustavo e eu não sei o que ela disse, mas ele começou a fazer massagem nas minhas costas (eu estava debruçada sobre a mesa da cozinha) e me ofereceu suco ou chá (senti vontade de rir na hora, Abençoada Zezé). Ligamos para o Ric e avisamos que podiam vir. Eram cerca de onze horas da noite.

VII – O parto
Daí pra frente o negócio engrenou de vez. Gustavo continuava tentando cronometrar e me perguntava o que foi cada vez que eu gemia (foi uma contração, po**a! Não… foi o quÊ? Dor de dente? rs… fui uma parturiente muito mal humorada, rs… Para de cronometrar essa me**a, kkkk). Decidi que ficaria na sala, e não no quarto como planejara inicialmente. Ele arumou o colchão no chão, colocou o plástico, uma colcha, almofadas e fui eu pro chão. Ficava em posição de lótus entre as contrações e na hora que elas vinham pedia pra ele puxar minhas mãos pra frente, ficando em posição genupeitoral, balançando os quadris pra frente e pra trás. Lembro de ter levantado pra caminhar e ao me apoiar no sofá para outra contração ouvi a voz e visualizei aquela propaganda do discovery home and health quando uma parturiente diz: ainda bem que inventaram a peridural. E fiquei viajando nisso, com raiva por esse pensamento ter invadido minha introspecção. “Que anestesia o que, nem dói tanto assim”…
vinha outra…
“tá, dói… é, pensando bem, como esperar que uma pessoa que passa a gestação inteira escolhendo papéis de parede e sapatinhos, que acreditou no “pó fica tranquila, querida” do GO na primeira consulta vá passar por isso e achar lindo?”
“Opa, melhor me concentrar de novo, a flor, pense na flor.”
Daí me veio a discussão da lista: lótus? Orquídea? Lírio? Fiquei com a Laelia Purpurata…
“Vocalize, abra bem a boca. Solte o ar lentamente, vibre”
O Gustavo tocou um lugar do meu quadril, nas margens do sacro, que fez outra contração começar imediatamente.
“Nunca mais toque aí! Tô com frio, vou pro chuveiro”
Me levantei sentindo o corpo mole. Meu queixo batia. Pedi o aquecedor e liguei o chuveiro beeeem quente. Frio, frio… minha cara carrancuda no espelho, com a testa tão contraída que chegava a doer, olhos semicerrados… Que tremedeira… Peraí! É a transição! Claro!!!
Saí do chuveiro e sentei no vaso. Pedi um suco. Gustavo trouxe mas abriu a porta na hora errada. Mandei fechar. Trinta segundos depois abro a porta com a cara mais normal do mundo, tomo o suco e digo: acho melhor encher a banheira. Ele disse que parecia uma maluquisse. Uma hora abria a porta e eu grunhia como se estivesse virando o incrível Hulk. Trinta segundos depois parecia uma professora de primário falando com os aluninhos, rs…
Ele colocou a dita cuja no box e eu ajudei a encaixar certinho. As contrações não doiam mais e eu achei uma frequência de vocalização ótima, que fazia toda a dor sumir.
Gustavo deixou a banheira enchendo e eu disse que achava melhor colocar a mangueira com água da rua também (sentia uma pressão no reto, muita vontade de fazer cocô.) Ele voltou da cozinha com o celular e uma mensagem do Ric (passamos de Torres). Significava que em menos de meia hora estariam ali. Era 1:57. Na contração seguinte minha bolsa estourou. Foi incrível (não ouvi ploft). Eu disse: Gustavo, a bolsa estourou!
Ele: tá, e agora?
Eu: Liga pra Zeza, diz que estourou e que o líquido está claro.
Percebi que estava puxando o porta toalhas cada contração e que a vocalização mudara, era um gemido de força. Resolvi me tocar e pude sentir a coisa mais macia do mundo, cerca de dois cm após a entrada da vagina. Sem dúvida, eram os cabelinhos dele. Pulei pra dentro da banheira e disse: Esquece a mangueira da rua Gustavo! Deixa assim.
Quando abri a porta dei de cara com a minha mãe. Ela disse que o João tinha acordado e que o Gustavo estava com ele por que ele não queria ficar com ela. Eu respondi: Mãe, não me deixa nervosa. ElA fez uma cara tipo: Mas eu não fiz nada!!! rs… e realmente não tinha feito!
Fechei a porta e entrei na banheira. Mais um puxo, eu escancarava a boca e vocalizava um sonoro e longo aaaaaaaaaaa. Foi muito legal, era instintivo e bonito, parecia um canto. Minha mãe disse depois que o João perguntava o que era isso e que o Gustavo disse que era o mar… kkkkk querendo enganar o guri… a mãe disse que ele respondeu que não era o mar não e então ela disse: Esse som é a mamãe cantando para o teu irmãozinho chegar. Eu nem me liguei em chamar ele pra ficar comigo. Na verdade, não chamei ninguém. Eu estava muito conectada com meu corpo, com o bebÊ, visualizava um túnel, via como se estivesse no lugar dele. Estava sozinha no banheiro e assim estava ótimo.
Chamei minha mãe e pedi uma peneira. Segundos depois a vejo entrar no banheiro com uma cadeira. “que cadeira é essa, mãe?” “Ué, não me pedisse uma cadeira?” “Não, mãe, uma peneira!!! tem na segunda gaveta da pia”.
Ela trouxe. “posso ajudar com mais alguma coisa?” “pode! Sai e fecha a porta”
Na outra contração, soprei a água e fiquei vendo o reflexo na superfície… Estava vindo outro puxo, ele ia nascer. Me ajoelhei para ampará-lo, mas quando a contração veio, precisei ficar em quatro apoios de novo. Pensava: preciso me ajoelhar, preciso pegar o bebê. Meu períneo começou a queimar. Eu queria tocar, mas não conseguia sair daquela posição.
A voz da Zezé vinha na minha mente dizendo: não segura o teu parto, deixa nascer!
Eu pensava: nossa… ele vai nascer e a equipe não chegou. Seremos só eu e ele… Não vou falar nada, vou amparar o bebê e pronto.
Estou me preparando para a próxima força quando ouço a voz do Ric: Chegamos!!!
Na porta vejo a carinha dele e a da Zezé atrás.
Na verdade, desconcentrei. Sei lá, foi um misto de alívio e sei lá o que… Gritei: Vai nascer! Ricardo pediu pra eu virar pra ele poder ver o bebÊ. Mas eu estava paralizada naquela posição. Disse: não dá! Está queimando!
Ele pôs a mão na água e tocou a cabeça do bebÊ: é, a cabecinha está aqui, vira…
Eu repeti que não conseguia e gritei, tá vindo outra! Nasceu a cabeça.
Vai nascer! Agora!!!
Fechei os olhos e ouvi o chorinho mais lindo do mundo, bem alto. 28 de setembro, 2:40h. Zezé me ajudou a levantar enquanto Ricardo segurava o bebÊ. Passei a perna sobre o bebÊ (e o Ricardo. Não cresce ma-ais. :P). Ele me entregou o Vini e chamou a Zeza.
Foi incrível, mágico e sublime. Eu chorava e repetia: meu amor!!! ele chorava no meu colo, rosadinho. Lindo… Nossa, a sensação é indescritível, parece que o coração vai explodir de amor. E o cheirinho doce, o calor do corpinho escorregadio. João Vítor veio ver, Gustavo também. Depois me contou que não acreditou quando o médico abriu a porta e me ouviu gritando VAI NASCER!!! Como assim? rs..

VIII – Primeiros minutos
911783_648766265140926_759874244_nUns dez minutos depois fomos para a cama. Ele grudadinho em mim o tempo todo. Não abriu os olhos como eu tanto sonhei… Só espiou de cantinho e fechou de novo. Mamou menos de 20 min após o parto, com o cordão ainda ligado. Zeza chamou o Gustavo pra cortar o cordão e, embora eu inicialmente quisesse aguardar a placenta dequitar pra cortar o cordão, nem me manifestei, por que estava demorando pra dequitar e a coliquinha estava me incomodando. Mas eu gostaria de ter esperado. Talvez se tivesse feito o plano de parto, a Zezé pudesse ter me lembrado do que eu desejava.
Acho que quase uma hora depois a placenta saiu, nem sei. Sei que a Zeza achou melhor tracionar (ela já estava solta, só não tinha saído ainda). Guardamos a placenta e plantamos com uma muda de Ipê amarelo dos dias depois, no quintal da nossa casa.
Tive duas pequenas lacerações de mucosa, que não renderam912919_648768461807373_1299521031_n pontos e três dias depois nem existiam mais.
Depois da saída da placenta e de ter mamado bastante, Vinícius foi pesado e medido, muito carinhosamente pela Zeza. 51 cm, 3,375 kg.
Eu nem tinha separado roupa nenhuma pois minha intenção era deixá-lo só de fraldinha, em contato com minha pele. Mas estava meio frio e elas escolheram uma roupinha enquanto eu comia (estava morta de fome!). Segundo o Ric, ficou parecendo um ser de outro planeta, rs…
O João Vitor ficou cercando, foi chegando, se aproximando e no final, dormiu do lado do irmãozinho. Nunca vou esquecer a felicidade que eu senti, vendo os dois deitadinhos lado a lado, sentindo meu corpo cansado mas sem conseguir dormir. Senti vontade de pular de alegria.

IX – A certidão de nascimento
Bem, se teve uma coisa que me aborreceu muito foi a história da certidão. Logo no dia seguinte, menos de doze horas depois do bebê nascer, Gustavo foi ao cartório acompanhando de duas testemunhas: um colega nosso de trabalho e a minha fisioterapeuta. A tabeliã se recusou a registrar a criança por não haver DNV. Disse que o cartão do pré natal e caderneta de saúde não significavam nada e que sem DNV não iria registrar pois havia uma regra dos cartórios de Santa Catarina que não permitia o registro sem DNV. Ele veio embora com a cara no chão eu me mordi, peguei o bebê e fui no cartório. Perguntei se o cara não lembrava que eu tinha ido ali e perguntado sobre o procedimento para registro de uma criança nascida em casa e que ele mesmo me dissera que bastava vir o pai e duas testemunhas maiores de 18 anos. Como agora se recusavam a registrar meu filho? Ele veio com o papo da norma de conduta de SC e blá blá blá. Eu disse que nenhuma norma estadual poderia de sobrepor ao ECA, uma lei federal.
A tabeliã se levantou e fechou a porta da sala dela na nossa cara. Eu disse que procuraria o conselho tutelar. Meu marido ainda perguntou se se ele voltasse ali depois de 12 anos, com a criança e duas testemunhas eles registrariam e o cara respondeu que sim, nesse caso registrariam. Quando disse que nascer em casa era a coisa mais comum do mundo o cara respondeu debochadamente que pra ele não.
Sai com o bebÊ no colo e a cara no chão, com vontade de chorar. Fui no conselho, liguei pro plantão mas pensei comigo: vou passar no posto de saúde e conversar com as gurias. Elas foram super atenciosas, tentaram conseguir uma DNV. MAs o fato é que não conseguiram por que a própria responsável pelo setor na capital do estado disse que não havia necessidade de DNV. Resolvemos ir ao Ministério Público.
Com cinco dias de vida, Vinicius estava comigo, depondo para uma acessora ou estagiária que me perguntou por que eu optara por ter o parto em casa, se eu seguia alguma SEITA!
Como o material cirúrgico foi esterilizado?
Com o que eu cortei o cordão? (com uma pedra lascada!!!!!)
E quis encerrar o depoimento no fim do relato do parto. Daí eu questionei: sim, mas e a parte do cartório, o fato de se recusarem a registrar o bebÊ, não é por isso que estamos aqui? Daí ela resumiu o meu constrangimento no cartório em duas linhas.
A Promotora chegou conversamos um pouco. Ela contou que tinha uma amiga que parira em casa com as meninas do Hanami e que ela mesma havia tentado o Parto Normal mas que sofrera por 12 horas e não teve dilatação, tendo que ser operada. Me pediram um atestado do médico que atendera meu parto.
Saí de lá com a voz do Raul Seixas cantando na minha cabeça: tem que ser selado, registrado, carimbado…
Depois é que minha ficha caiu e que percebi que eu estava lá justificando meu parto e provando que o filho era meu, não me queixando do cartório. Eu estava fazendo o que a tabeliã deveria ter feito, caso desconfiasse da origem da criança (caso eu não morasse em uma cidade de 6 mil habitantes onde todo mundo se conhece sabe que eu estava grávida).
Mas ela não fez, nem pegou meus dados pra apresentar no MP como deveria ter feito, nem avisou o conselho tutelar, nada, simplesmente negou um direito fundamental do cidadão e me humilhou. Se eu fosse uma maníaca sequestradora de bebês, a esta altura estaria longe.
Juntei o atestado, umas fotos grávida e uma na banheira logo após o parto que até hoje não sei quem foi que bateu e é a única foto do parto que eu tenho. Dias depois tivemos uma audiência com o Juiz.
Só no dia 7 de dezembro a certidão de nascimento foi emitida. E a DNV? A guria do cartório solicitou e preencheu… Declaração de Nascido Vivo… bem, pra mim parece bem vivo, e pra você???

X – Pro próximo parto
No próximo eu pretendo escrever um plano de parto. Pretendo amparar o bebê eu mesma e lembrar de colocar velas no banheiro, pra uma iluminação mais legal. Se estiver no clima, música, mas acho que vou de silêncio de novo, adoro o silêncio. Pretendo chamar meus filhos pra verem o irmão nascer (até hoje João Vítor diz que o médico chegou pra fazer o irmãozinho nascer… como disse o Ric: se eu não chego na hora esse bebÊ não nascia, rs…). Pretendo aguardar a placenta dequitar pra clampear o cordão. Vou escolher uma roupinha pro meu filho não ficar parecendo um astronauta na primeira foto da vida, rs…Vou no cartório na finaleira, vou chamar a tabeliã e bater uma foto do lado dela, grávida.
Achei a inicial que o MP escreveu muito legal. Não sei se foi a promotora ou a acessora, mas foi bem fundamentada, colocaram recomendações da OMS para priorizar o parto natural, fizeram uma breve diferenciação de parto natural e normal, bem interessante. Tomara que alguem tenha se contagiado!
E a peneira? Bem, acho que até hoje minha mãe não entendeu pra que eu pedi a peneira.
Mas a presença da minha mãe foi boa. Pra ela e pra mim. Ela disse que me achou muito madura e sinto que se orgulhou muito de mim. Também percebi que a ajudou a digerir o parto dela.

E, Ric, a raiva pelo toque passou, tá? Acho que o toque foi meio que um acordo tácito. Eu não falei, mas estava ansiosa e meio que forçando a barra pra engrenar um TP. Talvez por isso tenha aceitado tão facilmente. Não sei… Mas isso me fez pensar, como a gente cede, a gente muda. Fim de gestação é delicado. Imagina se fosse uma equipe padrão. Como discutir com uma equipe na hora P?
Mas, no próximo parto, vai ser sem toque, rs…
A equipe, se possível, vai ser a mesma, pra vir dar a benção pro recém nascido, por que tenho certeza que esse nasce antes de chegarem.

E que venha o terceirinho! Feliz aniversário, meu alemãozinho levado!❤

Jejum–da série rotinas do parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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Continuando nossa série sobre as intervenções no parto normal, vamos falar do famoso jejum. A justificativa para eles é simples: em caso de emergência, se você precisar ser anestesiada, deve estar com o estômago vazio. Isso por que um dos efeitos colaterais da anestesia seria o risco de vomitar e aí, teria o risco de aspirar esse conteúdo e se asfixiar.

Ok. Agora vamos aos fatos. De acordo com alguns autores, a chance de uma mulher morrer asfixiada por não ter feito jejum durante o parto é de uma em SETENTA MILHÕES! É o mesmo risco de ser atingido por um raio DUAS vezes no mesmo ano.

Pra se ter idéia do quão insignificante é o risco, a chance de morrer em um acidente de automóvel é de 1 em 85. Já a chance de morrer em um acidente de avião é de 1 em 5.862.

Qualquer atleta amador sabe que é preciso manter-se hidratado durante o exercício e ingerir alimentos leves, que te dêem energia para completar a atividade com sucesso. No parto não é diferente. Parir demanda esforço físico e consome energia! Sentimos sede e é importante manter-se hidratada.

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Ficar sem comer pode provocar hipoglicemia, tonturas, dor de cabeça, náuseas, enfim, um mal estar generalizado. Não quer dizer que você, no auge do seu trabalho de parto, queira bater uma feijoada. Não é isso e de fato, muitas mulheres nem sentem fome, muitas vomitam no início do trabalho de parto, esvaziando o estômago. MAs escolher alimentos inteligentes, que te tragam energia em pequenas porções, como o mel, um pedacinho de chocolate, um pouco de fruta, um gole de suco. E água então, é fundamental! Água, isotônico, água de côco, chá. Manter-se hidratada trás bem estar e garante que tudo continue funcionando em plenitude, líquido é fundamental. No meu primeiro parto, hospitalar, me deram água bem limitadamente. Lembro que eu sentia taaaaaaaaanta sede! A boca pastosa, seca, é horrível! Já no segundo meu marido me oferecia suco e água com frequencia e eu tomava um golinho aqui, outro ali. Não chegou a dar meio copo de suco no total. Mas me trouxe bem estar e satisfação! E isso é muito importante, é um momento de superação e somar coisas que te façam bem, que te tragam alegria e prazer, como um gole de suco saboroso, pode contribuir muito pro teu estado geral.

A OMS não recomenta o privação de líquidos e alimentos rotineiramente e classifica a oferta de líquidos durante o trabalho de parto como uma conduta positiva e que deve ser estimulada. Parto não é tortura, gente. Ficar sem água é!

 

Fotos tiradas da pesquisa de imagens do Google. A imagem é sua? Fala comigo que retiro, ok?

 

http://www.amigasdoparto.com.br/oms.html

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u723412.shtml

http://ultimosegundo.ig.com.br/desastresaereos/chances+de+morrer+em+acidente+de+aviao+sao+pequenas/n1237721020708.html

http://www.fundacaoportuguesadopulmao.org/pneumonias.html

O Renascimento do Parto–O filme!

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Foto: Lucas Jones

É com muita alegria, prazer e êxtase que falo pra vocês: fui à pré-estréia do filme mais esperado dos últimos tempos em todas as rodas de humanização que conheço! O Renascimento do Parto – O filme. Em Porto Alegre foi nesta terça, dia 13/08, com direito a debate pós-filme e tudo.

O filme é maravilhoso, muito bem filmado, áudio de excelente qualidade e acima de tudo: informação de primeira para qualquer pessoa que esteja grávida, tenha estado ou planeje ter filhos em algum momento da vida.

Conta com a participação de médicos renomados, obstetrizes, doulas, mães e faz uma revelação, uma importante denúncia sobre o sistema de cesáreas em série do Brasil, que ocupa a vergonhosa marca de campeão mundial nesta cirugia, sendo que 52% dos nascimentos em nosso país se dão pela via cirúrgica, pulando para escandalosos 80%, até 90% em alguns hospitais da rede privada, uma epidemia. Mas é muito mais do que isso.

No documentário estão revelados os motivos, as entrelinhas que nos levaram para este desfecho, os motivos que transformaram o parto humano em um evento meramente tecnológico e médico, focado na figura deste profissional, centrado no hospital e na doença, onde a mulher é um mero container fetal com potencial assassino de onde o bebê precisa ser extraído. E também as consequências desta forma de lidar com a mãe e com o recém nascido.

Mas nossa voz está sendo ouvida. O documentário ecoa o grito de inúmeros ativistas e profissionais da área, que passaram anos sufocados, marginalizados pela medicina tradicional.

Vale a recomendação, assistam o filme. É orgulhosamente brasileiro.

Em Porto Alegre, estréia sexta. consulte o site do filme para informações sobre a estréia em um cinema pertinho de você!

Assita o Trailler aqui!

SORINHO – Da série Rotinas do parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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Se tem um ingrediente que não pode faltar na receita de uma cesária de emergência ou de um parto beeeeeem Frank, é este: o Sorinho. Quando alguém sentar do teu lado, amiga gestante, e começar a contar como foi horrível o parto, como doía, como foi diagnosticado um sofrimento fetal e foi necessária uma cesária de emergência, pergunte: e te deram sorinho? A resposta vai ser sim.

Sim, mas não dão pra todas? Dão! E este é o problema! Entrou no hospital com contrações, lá vem a enfermeira com a bandejinha, a agulha e o sorinho. Além dos problemas óbvios relacionados à falta de mobilidade por estar presa ao tal soro, o mais escabroso está por vir.

Naquele soro tem uma versão sintética da ocitocina, um hormônio que os mamíferos produzem na hora do parto (e em outros momentos da vida também) e que, no caso das mulheres, faz com que o útero se contraia. Isso assim, resumidamente pois, na realidade, é toda uma cascata hormonal finamente equilibrada que está envolvida no parto. Só que o hormônio sintético faz apenas isso: contrái o útero. As demais funções da ocitocina natural não são cumpridas pela sintética. Então, vamos conversar sobre tudo o que você e o bebê perdem ao receber a ocitocina sintética para acelelar o trabalho de parto (sim, acelerar, pois a fila tem que andar, você precisa desocupar o leito logo pra próxima parturiente).

Em condições fisiológicas, a ocitocina endógena (produzida pela mulher) vai produzir contrações suportáveis, tanto para a mãe quanto para o bebê. Suportáveis em intensidade, duração e intervalos. Quando a ocitocina sintética chega pra acelerar o processo, aumenta a força da contração, o que significa mais intensidade dolorosa. Ela também aumenta a duração da contração ou seja, mais dor, por mais tempo. Como se não bastasse, ela diminui o intervalo entre as contrações, que seria o tempo que você teria para se reestabelecer e se preparar entre uma e outra contração.  Ao entrar em sua corrente sanguínea em excesso, ela satura os receptores do útero que, para se proteger contra uma super contração, desativa parte dos receptores de ocitocina. Então, após o parto, quando esses receptores seriam necessários para a rápida contração uterina que evitaria a hemorragia, eles estão desativados. Assim, você tem mais chances de sofrer uma hemorragia pós parto graças a ocitocina sintética que te deram pra “ajudar” no parto. Ela também tem uma importante função comportamental. É conhecida como o hormônio do amor. Ela prepara a mãe e o bebê para o grande encontro. MAs a ocitocina sintética não produz os efeitos comportamentais esperados.

Enquanto isso, quietinho no útero, está o bebê, que vinha curtindo o trabalho de parto até então calmo e perfeitamente suportável. A ocitocina endógena tem a capacidade de ultrapassar a barreira placentária e inunda o cérebro do bebê. Lá, além do resultado comportamental, que seria de preparar o bebê para o imprinting (momento em que conhece ou deveria conhecer o rosto da mãe, com o cérebro cheio de ocitocina e sentir prazer e amor), a ocitocina teria uma função protetiva. Ela protegeria os neurônios, os mantendo em um estado de stand by, uma espécie de transe, onde o consumo de oxigênio seria muito reduzido, estanto portanto, preparado para os períodos de hipóxia previstos no parto, para os períodos com menos oxigênio. Sem a ocitocina, quem protege esses neurônios?

Durante as contrações, o músculo uterino se aperta e a contração das fibras uterinas reduz bruscamente o fluxo sanguíneo para a placenta. Quando a contração cessa, a placenta se reabastece de sangue oxigenado, se preparando para manter o bebê bem durante a próxima contração. Ao adicionarmos a ocitocina sintética, o útero contrái muito mais, reduzindo mais ainda esse fluxo. E fica assim por muito mais tempo. E o intervalo para se reestabelecer é muito menor. É como não conseguir emergir em um mar tempestuoso. Você precisa respirar mas as ondas se sobrepõe e te impedem de sorver o ar. É exatamente isso que o bebê sente.

E aí vem o diagnóstico: sofrimento fetal. Preciso dizer que foi fabricado? Será que ninguém vê? Estamos submetendo mães e bebês a uma situação de risco assim, deliberadamente, por que é “rotina”.

Se eu produzo ocitocina, por que injetam uma coisa sintética similar, mas muito inferior, em minhas veias?

Para produzir Ocitocina, certas condições são necessárias. É preciso ocorrer o que se chama de apagamento cortical, que seria a desativação da parte cerebral responsável pela consciencia e raciocinio, deixando que o cérebro primitivo trabalhe. Mas para isso, é preciso que haja pouca luz, temperatura agradável, silêncio, carinho, respeito, amor, entrega, confiança. Tudo o que não tem em um hospital.

A preocupação vai além. O obstetra francês Michel Odent condena duramente o uso de ocitocina sintética e fala que teme sim pelo futuro da humanidade, um futuro feito por pessoas que ou não tiveram contato com a ocitocina no nascimento por terem sido extraídos antes de sequer entrarem em trabalho de parto ou por pessoas que foram privadas da ocitocina endógena por terem nascido de partos induzidos com ocitocina sintética. Questiona-se o resultado dessa privação, na futura capacidade dessas pessoas de sentir prazer e de amar.

Eu também tenho medo.

 

Para saber mais:

A Cientificação do Amor – Michel Odent

http://guiadobebe.uol.com.br/sistema-hormonal-do-parto/

www.youtube.com/watch?v=rBnHkoRN6kE

http://vilamamifera.com/mamiferas/ocitocina-sintetica-x-ocitocina-natural/

http://www.artigos.etc.br/consequencias-causadas-pela-aplicacao-de-ocitocina-na-inducao-de-partos.html

Monitorização Fetal Contínua – da série Rotinas do Parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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Monitorização Fetal Contínua – da série Rotinas do Parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

Cotinuando nossa série sobre as Rotinas do Parto NORMAL, vamos falar da monitorização fetal contínua. Também chamada de Cardiotocografia, é um exame no qual uma cinta com eletrodos é colocada na barriga da gestante e ligada a um aparelho, que fica monitorando continuamente os batimentos cardíacos do bebê e as contrações do útero. Até aí, tudo bem, parece inofensivo, tirando o pi pi pi irritante e constante e tudo o que a sua imaginação pode fazer por você ao ouvir um ritmo diferente do que aquele que você imagina ser o ideal e claro, o pequeno detalhe de que a cardiotocografia Cópia de Exame de Cardiotocografiaestá relacionada a 40% de falsos-positivos” e, como se não bastasse, o tamanho do trombolho que é o aparelho. Ou seja, não condiz muito com a imagem que eu tenho de um parto ativo. Como você vai deambular, se mexer, ir ao banheiro, entrar no chuveiro, usar a bola ou quem sabe até entrar em uma banheira com um monte de fios conectados a um aparelho super hightech que nem é à prova d’água? Smiley mostrando a língua

Não vai, querida. Com um cardiotocógrafo do seu ladinho, você vai ter que ficar quietinha, deitadinha, só esperando. E isso é muito ruim por si só, concorda? Pra muitas mulheres, o simples fato de estar deitada já faz com que as contrações saiam do patamar suportável. Ficar deitada também é ruim, por que se o que dilata o colo do útero é a pressão da cabeça do bebê, a gravidade pode ser uma super aliada nessas horas e abreviar bastante a duração do trabalho de parto. Além disso, ficar deitada faz com que o peso do útero recaia sobre os grandes vasos que passam por trás dele e comprimir esses vazos. Isso pode reduzir o fluxo de sangue para o bebê, de forma que a posição em que te colocam para fazer o exame pode ser a responsável por causar justamente o que ele gostaria de prevenir: a freqüencia cardiaca fetal não tranquilizadora ou o famoso “sofrimento fetal”.

Daí a mulher está deitada, sente mais dor, o TP não evolui: manda um soro com ocitocina pra corrigir a dinâmica uterina (se já não estava com)! Mais uns caninhos e outro trombolhinho pra carregar ou melhor, outra desculpinha pra te deixarem quietinha. Aí vai, mais dor, contrações mais intensas: ANESTESIA, por favor! Se tiver! se não tiver: socorro! me operem logo! Tensão, medo, dor e compressão dos vasos mais a ocitocina, que também aumenta o risco de redução do fluxo sanguíneo para o feto e bingo! BCF alterado. “Mãezinha, seu bebê está em sofrimento, vamos ter que operar”. Visualizou? Assim se fabrica uma cesárea. É um pacote! Ás vezes, só mudar de posição reestabeleceria uma frequência cardiaca fetal normal.

Mas e aí, como monitorar o bebê? Um velho estetoscópio de pinard ou um portátil sonar doppler resolvem esse dilema. A auscuta intermitente do feto ainda é considerada a melhor forma de acompanhar a vitalidade fetal durante o trabalho de parto de uma gestande DE BAIXO RISCO. Até por que os batimentos cardíacos fetais costumam oscilar, reduzindo durante a contração e voltando ao normal depois dela. Mas pra quem está ouvindo, ouvir o pi pi pi do cardiotocógrafo desacelerando, nossa, deve ser apavorante. Empata qualquer parto.

Só que é um, aparelho caro e está lá no hospital, precisa ser usado para se pagar, mesmo que seja TOTALMENTE DISPENSÁVEL como exame de rotina em gestantes de baixo risco. Então, abre o olho! Até por que se o seu obstetra usa este método de rotina, ele já não deve ser muito adepto ao parto natural. A seguir, um trecho de um artigo que achei na web, muito interessante, por sinal. Os grifos são meus.

“Com a introdução da monitorização eletrônica fetal na avaliação do bem estar fetal, muitos obstetras foram induzidos a acreditar no seu benefício em reduzir a morbimortalidade perinatal, o que não foi evidenciado em ensaios clínicos randomizados. Entretanto, apesar as limitações e problemas com a cardiotocografia contínua, esta ainda é bastante utilizada em alguns centros do mundo, principalmente nos Estados Unidos da América. Esforços recentes têm sido realizados no sentido de desenvolver métodos mais acurados para aperfeiçoar a vigilância fetal intraparto. Dentre os métodos expostos nessa revisão, o exame ideal, isolado ou associado a cardiotocografia, para o diagnóstico correto de sofrimento fetal, deverá melhorar os resultados perinatais sem aumentar a incidência de cesarianas. No Instituto Materno Infantil Prof. Fernando Figueira utiliza-se a auscultação intermitente da freqüência cardíaca fetal como padrão-ouro para avaliação do bem estar fetal durante o trabalho de parto. A utilização da cardiotocografia contínua fica reservada para as gestações de altorisco para desenvolver sofrimento fetal, ou ainda na presença de alterações da freqüência cardíaca fetal pela auscultação com o sonar Doppler. Ressalta-se que os obstetras que utilizam tecnologias mais sofisticadas (monitoramento eletrônico contínuo, por cardiotocografia ou outro método) com essa finalidade devem conhecer em detalhes a fisiologia fetal e as limitações e imprecisões de cada método, para que não indiquem cesarianas desnecessárias. Evidentemente, o treinamento para adequada avaliação do bem-estar fetal intraparto deve fazer parte do treinamento obstétrico, e estudos recentes sugerem a necessidade de aumentar a capacidade dos profissionais neste sentido, com ênfase no treinamento e melhora de suas habilidades. Da mesma forma, os pais devem ser esclarecidos sobre o método de monitoração a ser utilizado, evitando uma falsa sensação de segurança, visto que a utilização de qualquer teste não garante em 100% a não-ocorrência de hipoxia fetal.”  (http://www.actamedicaportuguesa.com/pdf/2008-21/3/229-240.pdf)

A OMS a classifica como Condutas freqüentemente utilizadas de modo inadequado.

Um beijo e não se deixe enganar!

TOQUE – da série Rotinas do Parto “Normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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TOQUE – da série Rotinas do Parto “Normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

 

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Esse é de praxe. E nem precisa estar em trabalho de parto! Basta estar grávida. Tem médico que faz toque em toda santa consulta do pré-natal. Gente, outro procedimentozinho desagradável e, na maior parte das vezes, dispensável. E como todo procedimento dispensável, pode sim atrapalhar e mais que isso! Pode até ser um vetor de bactérias, fungos e vírus, principalmente durante o trabalho de parto e com a bolsa rota (depois que rompe a bolsa de água).

Pra que serve?

O Exame de toque serve para avaliar a condição do colo do útero da gestante/parturiente através da textura, posicionamento e dilatação do colo, por que pro bebê nascer, o colo precisa dilatar. Assim, através do toque, se pode avaliar o andamento do trabalho de parto, se está de acordo com o desejado ou se é necessário intervir de alguma forma. A OMS sugere que sejam feitos periodicamente (aproximadamente a cada duas horas), para adequado preenchimento do partograma, que é um gráfico, uma ferramenta, que permite analisar a evolução do trabalho de parto e, em conjunto com os demais sintomas e características observadas pela equipe, ajuda a decidir se e quando é hora de intervir (não signfica fazer uma cesária necessariamente, mas quem sabe sugerir uma outra posição, uma caminhada, uma massagem ou até mesmo uma alternativa medicamentosa, como o uso de ocitocina sintética ou até analgesia).

Como funciona?

O examinador introduz DOIS dedos na vagina da gestante/parturiente e toca o colo, que fica lá dentro, lá no fundo. Ele pressiona (supostamente de leve) para verificar se está macio ou firme, tateia para identificar a posição e pela distância da abertura dos dedos, ESTIMA o quão dilatado está. Ou seja, ninguém mede com exatidão, não há um instrumento específico para medição e também não são introduzidos DEZ dedos para dizer que está com oito, nove ou dez dedos de dilatação. Em geral, o colo fica com aproximadamente 10 centímetros quando a dilatação está completa. Mas isso é uma aproximação, uma média. O ideal é pensar nestes valores como porcentagens onde 1 é 10% e 10 é 100%. Então quando um colo tem 6 cm de dilatação, significa que está 60% dilatado. E sendo uma medida subjetiva, também varia de examinador para examinador. O que é 7 pra mim pode ser 6 pra ti ou seja… Não é o valor em si que importa e sim o fato de ter aumentado a dilatação ou não. Por isso não há sentido em ser feito por mais de um examinador.

Tá, mas qual o problema afinal?

Vamos começar pelo exame de toque no pré natal. Você, uma gestante saudável, grávida de oito semanas, vai no GO e ele fala que vai fazer exame de toque. Me diga: PRA QUÊ? Você está em TP? Teve sangramento recente? Algo que justifique tal conduta? Não. Você está perfeita e radiante. Ai faz um exame que por si já é desagradável, pois, piadinhas à parte, é sim, chato e incômodo ter um estranho introduzindo dois dedos na sua vagina, por mais que procure relaxar e olhe pro teto pensando amenidades, é CHATO, DESAGRADÁVEL E CONSTRANGEDOR. Dependendo da experiência e da delicadeza do examinador e da sua capacidade de relaxar nessas condições, é um exame que pode doer sim. Pra completar, a estimulação mecânica do colo pode causar um leve sangramento e até cólicas (meus dois filhos nasceram após exames de toque). Preciso falar que cólicas e sangramento são um pacote pânico perfeito pra qualquer grávida? E a troco de quê? De nada, por curiosidade, pra dizer que fez. (leia a complementação abaixo).

“Ah, mas no fim da gestação é bom fazer, pra ver se tem dilatação”. Tá. Pode espiar se está curiosa e estando ciente de que pode te dar cólicas e sangramento, então, sem pânico. Mas não ter dilatação com 38 semanas NÃO QUER DIZER NADA! Aliás, não ter dilatação com 40 semanas também não quer dizer nada. Você precisa dilatar DURANTE o parto e não antes dele.

Agora, durante o TP: ao chegar na maternidade, casa de parto ou quando a equipe chegar em sua casa provalmente farão um toque. Geralmente não é considerado parto ativo se você não tiver mais que 3 ou 4 cm de dilatação. A conduta, neste caso DEVERIA se expectante ou seja, vamos esperar e ver no que dá, por que pode ser alarme falso, pode parar e recomeçar dali a 3 dias.

Mas se a dilatação é maior que quatro e for constatado que de fato a mulher está em trabalho de parto, não há por que fazer toque de meia em meia hora. O toque atrapalha por que muitas vezes a mulher é colocada em posição de litotomia para realização do exame, que é uma postura incômoda (e perigosa). Muitas vezes precisa parar o que está fazendo e se desconcentra para fazer o exame. Além de tudo, dói.  O ideal é que seja feito entre as contrações e não durante uma, com a mulher na posição mais cômoda para ela e não para o examinador. E obstetras, obstetrizes e parteiras experientes, sabem existem outros sinais muito mais relevantes de que o TP está progredindo. A duração das contrações, a intensidade delas, o intervalo entre elas, o próprio estado de consciência da mulher, tudo isso aponta para o estágio do TP em que a mulher se encontra.

Depois que a bolsa que contém o líquido amniótico se rompe, não há mais a barreira mecânica entre o bebê e o meio externo e assim, microorganismos podem contaminar o ambiente uterino. Portanto, após a ruptura da bolsa, deve-se ter ainda mais cautela com o exame, que pode servir como vetor de microorganismos patológicos.

Outra coisa que me perturba são aqueles relatos de mulheres que receberam o toque de DIVERSOS examinadores. Principalmente em hospitais universitários, 10 ou mais alunos usam aquela mulher como cobaia pra aprenderem a fazer o toque. E ela ali, desconfortavelmente deitada, indefesa e constrangida, aceita esta invasão calada. Ninguém é obrigada a aceitar. E eles não podem fazer isso sem pedir autorização para a parturiente. É violência obstétrica das mais graves.

Também pode ser usado como forma de subjulgar e castigar a mulher, com um exame de toque mais invasivo e dolorido como tortura, para que cale ou pare de gritar. Infelizmente, acontece.

Abre o olho, “mãezinha”!

  • Tem gente que dilata aos pouquinhos, devagar, chega até 3, quiçá 4 de dilatação assim, sem nem ver, durante os pródromos. Bom pra elas, na hora de parir, vai faltar menos (o que não quer dizer que vá ser mais rápido afinal, cada parto é um parto). Mas não ter dilatação antes de estar em trabalho de parto é perfeitamente normal. Assim, não ter dilatação com 38 semanas não é motivo pra agendar uma cesariana e não quer dizer que você não tem passagem. Não tem por que não é hora do bebê nascer. Simples assim Smiley de boca aberta.
  • Geralmente o SUS não interna mulheres com menos de 3 cm. Mandam dar uma voltinha e retornar se não passar. Mas na rede privada, pode apostar! Se chegar lá com mais de 38 semanas e com dor, mesmo que seja dor de barriga, mesmo que não haja dilatação, eles vão internar a gestante, vão colocar ela no soro (aliás, vão primeiro perguntar se ela quer chamar o médico dela pra fazer a cirurgia) e depois de fazerem de conta que estão tentando, vão olhar pra ela com cara de dó falar que há três horas ela não sai dos dois centímetros e que precisam operar. Não, não estou exagerando e não conheço um ou dois casos. Conheço centenas de relatos de mulheres que foram levadas para a cirurgia por não terem dilatação aos 2 cm ou seja, nem estavam em trabalho de parto ativo ainda.

E como foi comigo?

Fiz toque na primeira gestação, tinha um que fazia em toda consulta. Eu odiava. Depois de trocar de GO 3 x e achar um com quem me identifiquei (que fez o toque na primeira consulta, não sei pra que, pra ter certeza de que eu era mulher e tinha uma vagina, quem sabe – gente, piadinha, ok?) eu só voltei a fazer toque com 39 semanas. Na época, eu estava à 240 km de casa e queria saber se havia algum sinal de trabalho de parto iminente para que meu marido pudesse vir acompanhar o parto a tempo. Resultado: NADA DE DILATAÇÃO. Mas tive cólica e um leve sangramento. No outro dia ainda tinha colica e no outro dia meu filho nasceu, rsrsrs.

Na segunda, foi um parto domiciliar planejado e o obstetra tinha uma viagem marcada para o fim da semana, eu fechava 40 semanas no dia da consulta, já vinha com cólicas e perdendo o tampão mucoso há cerca de quatro dias. Além disso, cerca de 260 km nos distanciavam e eu queria ter uma vaga idéia de a quantas andava meu colo. PAra minha decepção, cerca de 1 cm. O toque me deixou com uma baita cólica, as contrações que eu já estava tendo há dias se intensificaram e Vini nasceu menos de 24 horas depois.

E agora? Nunca saberei se de fato era a hora de eles nascerem ou se o estímulo mecânico influenciou, mas enfim, foi. Sempre me dizem que não, que não foi o toque. Mas a pulguinha morrerá atrás da minha orelha e não consigo entender por que, mesmo sabendo que não quer dizer nada, fiz.

Obs.: Retirei a imagem utilizada da página Moça: teu GO é cesarista, do facebook.

P.S.: Teve médico enlouquecido comigo comentando. Eu postei os comentários devidamente respondidos. Mas como talvez você seja médico e esteja com pressa e louco pra me esculachar, vou colocar aqui sobre a questão da IIC.

Bem, o post se refere a gravidezes normais e saudáveis, de baixo risco. Agora, se há suspeita de Insuficiência Ístmo Cervical, até onde me consta, o protocolo é investigar ultrassonograficamente e verificar a espessura do colo, geralmente na morfológica do primeiro trimestre. MAs para haver suspeita a mulher tem que ter histórico de abortos recorrentes… Então, no caso de primigestas, qual seria o sentido de suspeitar de algo que acomete 1% da população em geral se o colo será medido na morfológica do primeiro e segundo trimestre? Aliás, para mulheres sem suspeita de IIC (e primigestas obviamente entram neste grupo) o protocolo é medir na do segundo trimestre (embora saibamos que é medida também na do primeiro).
E se não há evidências de que a cerclagem seja útil após as 27 semanas, onde o risco do procedimento pode superar os do parto prematuro, qual o sentido de investigar “tatilmente” após essa data?
Como falo, a vantagem de se conhecer como, porque e quando é feito o exame, é fundamental para que se possa fazer uma escolha consciente. E claro, contar com a assistência de um profissional de confiança também (seja obstetriz, enfermeira ou obstetra).

Cinta pós-parto: usar ou não usar?

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Post publicado originalmente no Mãe Marombeira, em 20/09/2012

Esse é um tema que gera muita polêmica entre a mulherada. As opiníões, inclusive dos profissionais, são diversas. Particularmente, não usei, logo já podem imaginar o meu posicionamento. Vou então, explicar os argumentos que me convenceram e foram cruciais na minha escolha por não utilizar a famosa cinta pós-parto. ATENÇÃO: Até onde eu sei, em caso de nascimento por via cirúrgica (cesárea) o uso de cinta é obrigatório, pelo menos por um tempo. Então, meu pitaco aqui vale para as que pretendem ter/terão parto normal/natural.

Logo que o bebê nasce, a musculatura do abdômem, hiperextendida, fica flácida e fraca. O músculo do abdômem é um dos principais envolvidos na manutenção da nossa postura. Ficar de pé, logo após parir o filho é muito esquisito! A barriga despenca! Como a gravidade empurra os órgãos pra baixo, se você ficar em pé muito tempo, chega a sentir falta de ar! Além do que, o seu centro de gravidade, que mudou gradualmente so longo dos nove meses precisa ser reestabelecido assim, de uma hora pra outra. Então levante, mas com cautela! rs…

O útero ainda estará volumoso, a pele sobrando, a musculatura flácida, os órgãos fora do lugar. Enfim, uma bagunça, rs… Uma cinta pode parecer uma solução tentadora, pois te dará mais estabilidade e conforto, mas segurança, sobrecarregará menos a lombar. MAS, veja bem, se ficar em pé por um período um pouco maior parece um desfio e causa muito cansaço, é justamente por que seu corpo está sendo requisitado. Ao levantar para tomar banho, para caminhar, para atender o bebê, você solicita automaticamente os músculos abdominais, que terão que trabalhar pra te manter em pé. Ou seja, mesmo sem querer e talvez sem perceber, você os estará tonificando. Se estivesse de cinta, não estaria.

Não vai ser em dois dias que sua barriga estará igual à de antes, até por que o útero ainda está retornando ao seu tamanho e lugar corretos. Amamentar, é um santo remédio pois a sucção e o contato com o bebê produzem ocitocina (o hormônio do amor) que é o hormônio que estimula o útero a se contrair. Você vai perceber que, ao amamentar, no começo, sentirá cólicas similares às cólicas menstruais. Não! Não brigue com elas, rs… é a ocitocina contraindo seu útero e fazendo a barriguinha desinchar!

Quanto às gordurinhas (e essas se acumulam não só na barriga, mas nas coxas, culotes e bumbum também), fique calma. O corpo passou nove meses acumulando essas reservas justamente pra garantir a produção de leite. Assim, a cada mamada, um pouquinho da gordurinha acumulada vai embora. Então você não precisa de nenhum regime mirabolante e nem correr pra academia. Apenas controle sua alimentação, sem cometer abusos fenomenais, amamente seu bebê em livre demanda e você vai ver suas medidas reduzindo gradualmente.

A cinta serve como uma “muleta” pra musculatura do seu abdômem. Sem a cinta, cada passo, cada movimento, é um estímulo para a musculatura. Você vai desperdiçar esse estímulo? Além do mais, ela comprime a pele, reduzindo a circulação sanguínea, o que pode piorar a flacidez da pele. E, pra completar, empurrar os órgãos pra trás na marra, com um útero ainda volumoso e um períneo que, assim como seu abdômem, também está se acostumando à nova situação e retornando à tonicidade natural (depois falamos mais sobre essa musculatura tão especial), pode estar relacionado com uma maior chance de você sofrer de “bexiga caída” (que aliás, não é culpa do parto normal, e sim do peso da gravidez e outros fatores, pois se não fosse assim, mulheres que optaram por cesárea não sofreriam desse mal nunca).

Ou seja, acho a cinta um desperdício de dinheiro e de tempo! Nos meus dois partos, após 15 dias, descontando a gordurinha e a pele, que demoram mais pra retornar, já sentia a musculatura bem mais tonificada e não, não parecia mais estar grávida, como muitas relatam que ficam.

Já na primeira semana, com autorização do seu médico, pode começar a realizar alguns exercícios para tonificar ainda mais sua musculatura, mas esse já é tema paro outro post.

Um beijo e espero ter contribuido para sua decisão, seja ela qual for!