Relato do meu primeiro parto – o nascimento de JV

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Resgatado das profundezas obscuras do Orkut, eis aqui o relato do meu primeiro parto, o nascimento de João Vítor, ocorrido no dia 21/12/2007, exatamente como escrevi e publiquei na ocasião (dia 04/01/2008). E lá se vão quatro maravilhosos anos! No final estão minhas observações atuais.

Nosso primeiro encontro

Relato do meu parto normal de cócoras!

Ficou enorme gente, mas quis detalhar bem pra vcs! espero que gostem! Beijos!

No dia 18/12/2007 fui para Florianópolis, a fim de realizar minha consulta obstétrica das 38 semanas e ficar por lá mesmo, esperando meu filho nascer. Como muitos já devem saber, eu tinha dois “planos”. O preferido seria meu filho nascer na DPP (dia 28/12) ou depois, para que a carência do meu plano estivesse encerrada e eu pudesse tê-lo em uma clínica de parto humanizado, com banheira, quarto exclusivo onde eu passaria o pré-parto e o parto, som ambiente, enfim, um sonho. O plano B era pro caso de o JV resolver pintar um pouco antes. Por isso fui pra Floripa com 38 semanas. Qualquer coisa correria para o HU, do qual tinha excelentes referências, além de ter lido lindos relatos de partos ocorridos naquele hospital. Pra completar, meu G.O. trabalha lá também. O principal pra mim era um parto com o mínimo de intervenções possível.

Na consulta, foi feito o primeiro exame de toque da gestação (aliás, não senti nadinha! Nem uma dorzinha, incômodo, NADA!). Meu colo estava alto e sem dilatação alguma. O G.O. comentou que talvez o JV desse as caras só no ano novo. Claro que fiquei felicíssima! Por mim, teria ficado mais um mês grávida! Amei minha gestação! Foi tudo maravilhosamente perfeito!

Fui pra casa da minha vó. Meu marido ficou comigo mas voltou pra Joinville no fim da tarde do dia 18, afinal, precisava trabalhar. Teoricamente, trabalharia dia 19 e dia 20 voltaria pra ficar conosco. Mas foi convocado pra trabalhar no dia 21 pela manhã. Então, ficou por Joinville mesmo.

No dia 20 pela manhã, quando fui fazer xixi, percebi uma sujeirinha rosada no papel. Olhei e lé estava ele: o tampão “se fue”! Comecei a fazer as coisinhas que faltavam, como o enfeite de porta do JV. Liguei pro GO só por “desencargo de consciência” (maldita hora que falei pra minha Vó a super novidade. Ela e minha mãe me alopraram até eu ligar pro médico).

Ele me disse o óbvio, exatamente o que eu tinha explicado pra elas: se não tem contração regular, se não saiu líquido, se não há um sangramento expressivo (eu estava com um borrãozinho de café), não tem por que preocupar-se. Mas a mulherada me encheu o saco. Minha vó, que teve cinco PN´s, dizia que eu deveria fazer cesárea. Minha mãe repetia como um papagaio que eu era louca, que falta de oxigenação pode causar danos ao bebÊ, que meu tio era deficiente mental pela demora no expulsivo. Peguei minha tinta, meu biscuit, mandei todo mundo se catar (pra ser educada na internet) e me isolei na cozinha, onde fiquei modelando e me distraindo. Dormi de tarde, pela noite continuei com o artesanato. Eu estava sentindo leves cólicas, como cólicas menstruais. Nem tinha como medir intervalo, pq eu nem sabia se aquilo era uma contração. Era tão suave! Mais pro fim da noite, depois da janta, senti que as coliquinhas haviam aumentado um pouco. Pelo menos eu as percebia melhor. Lá pela 1:00h fui deitar. Eis que, cinco minutos depois de ter deitado, sentei num pulo. A cólica veio e dessa vez, doeu. Achei que estava com dor de barriga (sim, pq parecia isso, uma baita dor de barriga, tipo quando vc toma chá de sene, rs…).

Fui até o banheiro, fiz o número dois normalmente. Tentei dormir de novo e assim que deitei, pimba! Voltou a dor! Sentei e pensei: “será possível? Bem, vou ficar aqui sentada e tentar monitorar os intervalos.” Resultado: TUDO ERRADO! 10 minutos, 15, 7, 3, 5, 8… algumas duravam 40 seg., outras 20. Pensei: “OK, são os pródromos! Que bom! É um ótimo sinal.” Continuei sentada e feliz, anotando o horário de cada contração e a duração. Mas sabe o que doía? Era o meu reto. Não tinha também essa de dor que começa nas costas e vem pra frente. Era uma cólica que começava e ia aumentando gradualmente, aumentando, eu respirava profundamente e relaxava, deixava ela vir. Sentia essa dor no reto que incomodava. Quando tava assim, doendo de fato, ia diminuindo, indo embora e sumia! Assim, como mágica. Juro que não era nada assim, de gritar ou fazer ai… nada! Era uma cólica mesmo, com uma dor no reto pra completar e que sumia quando começava a doer.

Assim passei a madrugada toda. Quando vi, era 6h da manhã do dia 21/12 e eu tinha uma folha de caderno lotada de anotações. Minha vó acordou, eu tentei disfarçar, inclusive mantinha uma conversação normal durante a contração. Mas eu precisava dormir. Só que não conseguia. Eu percebi que, todas as vezes que caminhei até a cozinha (inclusive me deu uma fome tremenda às 3 horas da madrugada) ou ao banheiro, as contrações se aproximavam. Comecei a questionar se eram pródromos mesmo, se deveria avisar meu marido para que viesse. Minha vó foi ao mercado e meu tio (o que tem problema) começou a me aloprar. Daí é que o negócio apertou. Fiquei nervosa e acordei minha mãe, para que tomasse conta do Márcio porque eu não tava podendo me estressar. Resolvi ligar pro médico. Ele disse que estava de plantão no HU e pediu para que eu fosse até lá. Perguntei se ele achava que eu deveria comunicar meu marido. Ele respondeu: “esquece o marido agora menina! Vem pra cá pra eu te ver e depois você liga pra ele.” Tomei um banho e fui com minha mãe. As contrações continuavam naquela… vinham e iam… quando eu achava que ia doer pra valer, acabavam. Apesar de que eu já não falava na hora da contração. Apenas respirava lentamente, bem fundo e relaxava.

Cheguei no HU as 11:00h. Na hora que ele me pediu pra deitar pra fazer o toque eu perguntei: tem que ser deitada mesmo (porque deitada doía sim! Deitada não dava pra ficar!)? Ele disse que seria rápido. Deitei e veio a contração. Respirei fundo (foi punk!). Ele esperou passar e fez o toque: 3,5 cm. Levantei o mais rápido possível! De pé o mundo era beeeeeem melhor (rs…)! Ele me olhou e eu disse: “já sei, é pra dar uma voltinha, né?” Ele disse: “isso mesmo. Você já almoçou? Vai dar uma volta, come alguma coisa, volta daqui a uma hora.”

Lá fui eu e minha mãe. Ela já estava branca e muito séria! rs… quando vinha a contração eu parava de andar, me apoiava e respirava. Ela ia embora e eu voltava a andar. Tomei um expresso com leite e um pedaço de torta maravilhoso. Comi bem devagar, parando pra respirar em cada contração. Voltamos pro hospital as 12:20h. Quando eu cheguei, ele havia saído! Minha mãe estava à beira de um ataque de nervos! Eu , numa boa, sentei um pouco (ai que sono!!!) e fiquei ali, de perninha de índio, respirando bem fundo, sentindo meu corpo. Eu já percebia quando ia começar e sabia quando ia passar. Uns 40 min depois, lá fui eu pro toque de novo (e tive que deitar de novo. Dessa vez eu gemi quando a contração veio). 6,5 cm!!! Ele sorriu e disse: “muito bem! Pode ligar pro marido, de hoje não passa!”

Minha mãe ligou e eu fui pro chuveiro (ô coisa boa!). Me deram uma camisolinha daquelas (pelo menos era transpassada e não ficava de bunda de fora, rs…) e fui pro pré-parto. No HU cada quarto tem dois leitos, separado por uma divisória. A enfermeira veio e me recebeu surpresa, comentando que eu estava super bem e tranquila pra quase 7 cm. Me convidou pra conhecer o local e as salas de parto. Fomos caminhando e conversando. Ela me mostrou a bola, ensinou a usar, me mostrou as salas de parto (ambas com cadeira para parto de cócoras), me ofereceu uma ducha (que eu aceitei na hora!!!). Ela colocou uma cadeira e abriu a água bem forte! Eu sentei e deixei a água quente cair na minha barriga. As cólicas quase sumiram! Eu sentia a contração, mas a “dor” era mutíssimo menor! Ela disse que eu podia ficar lá o tempo que quisesse mas que, se sentisse vontade de fazer força (ou de fazer cocô) deveria chamá-la. Fiquei lá muito tempo. Minha mãe saiu pra comer e voltou e eu estava lá ainda. Resolvi sair do banho e bater perna…quase cavei um buraco no corredor do pré parto rs… só eu andava, só eu usava a bola, só eu tomava banho. Todo mundo tava deitada, gemendo… e quando a contração vinha, eu me acocorava segurando na barra.

Umas 15h foi feito outro toque: um pouco mais de 8 cm… e meu marido que não chegava? Fiquei pela cama mesmo, sentada sobre meus calcanhares, com o tronco À frente. A enfermeira trouxe um Puff pra eu me debruçar. Minha mãe massageava a região do meu sacro (pé da coluna) do jeito que a enfermeira explicou. De tempos em tempos ouviam os BCF e mediam minha pressão. Durante a gestação era 10×7, no TP ficou em 12×9. Eu bebi muuuuuuuita água! Não tive fome, mas tinha muito sono. Lá pelas tantas a enfermeira perguntou se eu já havia ouvido falar em analgesia de parto. Respondi que sim. Ela perguntou se eu queria. Disse que não, afinal eu sentia que já estava acabando e não sentia tanta dor assim. Aliás, como em um texto da Xícara de Luz, nem sei se dava pra chamar de dor… deveria ter outro nome. Umas 17h ou 18h cheguei à dilatação total com a bolsa íntegra. Até então estava achando ótimo pois a bolsa poderia estourar durante o expulsivo que seria melhor pra mim e pro JV.

Meu marido chegou em seguida. Minha mãe saiu e ele ficou comigo. Chegou um outro enfermeiro, muito querido. Eu havia posto um pano no chão e estava lá agaixada, agarrada nos pés da cama. Ele veio, trocou por um pano limpo, trocou minha camisola, colocou a escadinha atrás de mim, orientou meu marido a sentar e explicou que era pra fazer massagem nas minhas costas quando a contração viesse e me ajudar a sentar quando passasse. Então meu marido ficou no degrau mais alto e eu numa almofadinha no degrau mais baixo, entre as pernas dele. Lé pelas tantas, resolvi andar de novo. O médico veio me ver. Eu não sentia a mínima vontade de fazer força, mas parecia que eu iria defecar. Ele fez o toque, o nenem tava descendo muito devagar. Eu disse: “Dr., vamos estourar essa bolsa logo? Estou tão cansada (ai que sono!!!).” Ele respondeu que me daria mais 20 minutos e voltaria depois. Caminhei saltitando (tipo numa rave, rs…) pra ver se o bebê descia ou se a bolsa estourava. Comecei a fazer força. O enfermeiro viu e me disse que não adiantava fazer força se eu não estivesse com vontade. Eu iria me cansar e o bebê não iria descer.

O médico voltou e como não tinha descido mais, perguntou se eu queria mesmo romper a bolsa. Respondi que sim. Ele o fez. Não doeu nadinha. Continuei caminhando, tomei outro banho. Nada de puxos. De repente, umas 19:30h, a vontade começou. Na hora da contração não senti dor alguma, só vontade de empurrar. E empurrei com muita força. Gritei pelos enfermeiros em seguida. Vieram com o médico que tocou e respondeu sorridente: é, vamos pra sala de parto! O enfermeiro trocou minha camisola e fomos todos caminhando pra sala de parto. Eu subi na cadeira. A luz do fim da tarde entrava pela porta, inundando a sala com uma linda luz alaranjada. O GO pediu para que a luz fosse ligada bem suavemente. Ficamos num ambiente de iluminação bastante agradável. Orientado pelo enfermeiro, meu marido subiu na cadeira também. Ele ficou sentado e eu fiquei com as axilas encaixadas nos joelhos dele, acocorada. Na hora da força ele me fazia massagem. Vieram duas forças e depois parou. Esperamos, esperamos… nada. Eu estava tão cansada…

O GO monitorou os BCF. Na hora não percebi nada, vi que estavam um pouco mais lentos e associei ao local onde o bebê estava, provavelmente um ponto onde o cordão estivesse sendo comprimido (aliás, nem sei se nasceu com circular ou não, vou perguntar pro GO na próxima consulta). Depois é que me liguei que estava lento FORA de uma contração. Foi tudo muito rápido. Lembro que ele falou: “eu vou te dar um sorinho, ok? Só pra aumentar a frequência das contrações, porque elas pararam e não podemos ficar aqui muito tempo.” Eu perguntei se iria doer (afinal, a ocitocina nesse sorinho tem fama de ser cruel!). Ele afirmou que não, só me daria mais vontade de fazer força. Eu concordei. Quando estavam colocando o soro, veio outra contração. Senti uma pressão intensa no períneo. Olhei pra ele e disse: Dr! Vai rasgar tudo!!! Muito calmo ele respondeu: “vai rasgar nada! Se rasgar, vai ser pouquinho! Deixa rasgar.” E veio a força (potencializada pelo soro). A pressão aumentou. Ele disse pra eu tocar que sentiria os cabelinhos do bebê. Toquei. Foi emocionante!!!

Ele ouviu os BCF novamente e estavam mais rápidos. Olhou pro neonatologista e disse: recuperou, né? Daí eu pensei: recuperou? O quê?! Filho, tá na hora de nascer. Veio outra força (tudo imendado, colou uma na outra). Eu gritei muito alto, não por dor, mas pra tentar tirar de dentro de mim a força que eu precisava pra fazer meu filho nascer naquela hora! Ele disse: “isso, pode gritar, fica à vontade! Faz mais uma força bem comprida!” Senti um alívio súbito. A cabecinha havia saído. Senti os ombrinhos escorregando e controlei a força, sentindo-os desprender um a um. As 20:00h em ponto, um calor gostoso “escorreu” de mim e ouvi o chorinho. Olhei pra baixo e lá estava ele! Imediatamente comecei a chorar. Uma emoção tomou conta de mim, uma sensação maravilhosa e indescritível! Eu dizia: “meu filho!” repetidamente e chorava. Nenhuma dor! Só alívio e prazer.

O cordão foi cortado imediatamente (que pena!) e o pediatra o levou para os “procedimentos” ali do meu lado mesmo. Não tirei os olhos um segundo sequer. Ainda não conversei sobre isso com o GO, mas creio que o clampeamento tão imediato tenha sido porque ele nasceu um pouco cianótico (roxinho). Mediu 51 cm e pesou 3,730kg. Me devolveram meu bebÊ e eu já estava deitada. Ele chorava tanto! Conversei com ele e ele me olhou, mas continuou chorando. Quando meu marido o chamou ele ergueu os olhinhos e parou de chorar na hora. Foi lindo. Não mamou na hora… ficou lambendo o mamilo (que engraçadinho). Quase esquecemos de fotografar! Quando o pediatra veio levá-lo eu lembrei e pegamos a máquina no bolso do meu marido. Ainda não acredito que não fotografei o parto, mas é uma memória que jamais se apagará. Nunca esquecerei a sensação maravilhosa, o calor, o chorinho do meu filho e o amor imediato que tomou conta de mim. Não existe no mundo sensação igual! Quero tudo de novo!

Apesar de não ter sentido nenhuma dor, tive uma laceração de segundo grau (mediana). Levaram o JV e meu marido foi junto, acompanhá-lo. Eu fiquei nos pontos, agora com outro médico. Essa parte não foi muito tri não… Não que tenha doído, mas a picadinha da anestesia local é chatinha e teve uma pequena laceração na mucosa perto da uretra e clitóris, uma região muito sensível, que a anestesia não pegou. Mas ali foi tão pequeno que nem precisou de ponto e hoje, duas semanas depois, nem marca tem.

Na sala de recuperação fiquei com o bebÊ e meu marido. Pedi pra urinar e não me deixaram ir ao banheiro. Me trouxeram uma cumadre. Eu pensei: “bem… se eu fizer deitada vai escorrer pros pontos e arder”. Quando a enfermeira voltou, me deu uma bronca pq eu estava “montada” em cima da cumadre, rs… Tomei água e ao chegar ao quarto ganhei um lanche e a enfermeira disse que voltaria pra me acompanhar no banho. Nem precisou ficar comigo. Tomei um banho ótimo e deitei. Mas meu sono sumira! Eu só conseguia olhar meu bebÊ! Ele dormiu até de manhã e acordou pra mamar. Foi preciso muita paciÊncia e ajuda das enfermeiras. Meus mamilos são planos e apesar de formarem bico com facilidade, o JV é muito esganado (rs…) e impaciente. O leite vazava mas ele parecia irritado. Porém a enfermeira surpreendeu-se com minha calma e principalmente em como ele me ouvia quando eu conversava com ele. Resultado: aprendeu rapidinho e mamou quarenta minutos direto. Amamentar é outra coisa maravilhosa e olhar aqueles olhinhos pretos bem fundo, ver o sorrisinho que ele dá quando começa a adormecer no seio, tudo isso é uma coisa tão mágica! Ainda estou encantada com a força do parto, com o sentimento arrebatador que tomou conta de mim e confesso estar espantada ao ver como tenho jeito com criança! rs… Quero mais um!

Feliz ano novo pra todos! Um parto maravilhoso pra quem ainda espera e muito leite!

Ah! Foi tudo pelo SUS gente! Todos no HU são maravilhosos! Estão de parabéns!

E pra esclarecer: Não fiz tricotomia (raspagem dos pelos) nem enema (lavagem intestinal). Aliás, nem se falou nisso…

 Eu e minha paixão

E assim terminou meu relato. Foram mais de cem comentários e elogios na época, de gestantes que queriam um parto igual ou não. Muitas achavam lindo mas diziam não ter “coragem” pra viver um parto natural (mas têm coragem de levar uma injeção de anestésico na coluna, cortar sete camadas de tecido e extrair o bebê de dentro do útero… ok, cada um com seus conceitos).

Hoje, relendo o relato e lembrando de tudo, percebo certas coisas que, na época, não tinha conhecimento suficiente pra notar. Primeiro, acho que não deveria ter optado pelo rompimento artificial das membranas, pois por mais que pareça um procedimento “inócuo”, tem diversos riscos envolvidos, inclusive o de prolapso de cordão (=cesárea na certa) e maior chance de infecção. E é uma intervenção logo, tira o título de “natural” do meu parto. Até a suposta bradicardia poderia ter sido evitada se a bolsa estivesse íntegra.

Depois, penso na mudança de ambiente e na parada de contrações que eu tive. Era ÓBVIO que isso iria ocorrer. A mudança pra outro ambiente provoca isso em função da adrenalina envolvida.

Sobre a ocitocina sintética, embora tenha sido usada no final, eu me arrependo de ter aceitado. Não sei se de fato a bradicardia foi determinante para a conduta ou se era o horário, pois ele nasceu as 20 em ponto, justamente no horário da troca de plantão, tanto é que quem me deu os pontos foi o outro obstetra.

Embora a laceração tenha sido pequena, acho que a ocitocina sintética teve sua culpa, além do fato de, durante toda a pesquisa e leituras sobre parto na gestação, eu só ter chegado até o círculo de fogo, ou seja, o momento em que o bebê coroa. Não sabia como fazer a força (na verdade, não sabia que nem deveria fazer força, apenas deixar que o bebê e a contração uterina fizessem o serviço, reduzindo ainda mais o risco de laceração).

Hoje tenho certeza que o clampeamento imediato foi pressa do neo em ir embora afinal, se estivesse cianótico, o melhor seria ter ficado ligado no cordão e recebendo oxigênio pela via placentária até que pudesse respirar sozinho. Também sei que o lambe lambe de mamilo era o começo da amamentação espontânea e que, e não tivéssemos sido separados naqueles minutos iniciais, talvez não tivéssemos tido tanta dificuldade para iniciar a amamentação.

Por fim, não me perdôo e jamais me perdoarei por ter deixado que fizessem tudo o que fizeram com o meu bebê logo após o parto. Clampeamento do cordão, pesagem, medições, colírio, banho… lembro de ter esticado os braços para pegá-lo logo que nasceu e o neo levou! Colocou em uma bandeja fria de alumínio pra pesar, o esticou depois de nove meses aconchegado em meu útero pra medir, esfregou sua pele delicada, aspirou suas vias aéreas, pingou nitrato de prata em seus olhinhos que queriam apenas ver o mundo pela primeira vez, causando dor e sofrimento, furou sua perna com uma agulha pra injetar vitamina K e nem sei se usaram ou não a sonda anal e oral. Quando deveria estar em meus braços, eu deixei que o levassem e lavassem em uma pia como uma carne de açougue, ignorando seu pranto e ignorando meus mais profundos instintos que me faziam querer pular atrás de meu filho e tomá-lo de volta. Por tudo isso eu jamais me perdoarei.

Por que eu não tive a atitude e a coragem de bancar um parto domiciliar na minha primeira gestação? Bem, talvez a questão financeira tenha pesado muito… A insegurança de uma mãe de primeira viagem também. Mas hoje, depois de ter tido meu segundo filho em casa eu sei que parir e nascer em liberdade não tem preço.

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  1. Cynara, como sempre, escreves muito bem e a descrição do parto do JV e o que pensas hoje é muito importante para levar o conhecimento do parto sem mistérios, sem medos e crendices médicas. O que fazes é lindo e te faz ainda mais bela e exuberante. Te admiro muito minha filha, tanto quanto te amo e amo meus netos.

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