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Relato do Parto de Vinicíus–Domiciliar

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Gente, meu pinguinho fez dois anos esse fim de semana!!! E como comemoração, decidi publicar o relato, feito três meses depois. Eu sei, está enorme e olha que eu cortei trechos. Infelizmente, não tenho fotos do parto. Só uma, essa aqui:

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I – Planejando
Após o nascimento do meu primeiro filho, João Vítor, de forma “humanizada”, no HU, em floripa, encantanda com tudo o que acontecera, empolgada com todas as descobertas que fiz durante a gestação, continuei a ler sobre o assunto, a me informar, tentando compreender por que existe tanto mito e tanto medo do parto, se ele é uma experiência tão boa, tão prazerosa.
Li muita coisa que deveria ter lido antes do nascimento do meu filho. Descobri que o parto fora ótimo pra mim, mas que pra ele, nem tanto. Compreendi que todas as intervenções que ele sofreu logo após nascer foram desnecessárias, inclusive percebi que a nossa dificuldade inicial na amamentação decorrera do afastamento após o parto, que embora breve (nem uma hora), foi o suficiente para eu receber em meus braços um bebê cansado e sonolento, que não se interessou muito em sugar.
A vontade de ter outro filho, que foi instantânea, assim que o primeiro saiu de mim, aumentou. Planejava uns cinco anos de diferença, mas quando me mudei para o sul do estado, tão perto de uma equipe que pra mim era um sonho, resolvi encomendar o rebento de uma vez. Custei a engravidar, coisa da minha cabeça, de certo, pois assim que me filho completou três anos e o desmame se completou, engravidei (14 dias depois, rs…).

II – A gestação
Assim como da primeira vez, eu sabia que estava grávida antes mesmo do atraso menstrual. No primeiro dia de atraso fiz um teste de farmácia, que confirmou o que eu sentia. Fui à UBS, falei que estava grávida e comecei o pré natal pelo SUS. Marquei minha consulta com o Ric, entrei em contato com a Zezé e com oito semanas começamos DSCF1247_20130927170020268o pré natal, que foi maravilhoso, com longas consultas cheias de conversa. Gustavo as vezes saia seguro, as vezes inseguro… verdade verdadeira é que a opção pelo PD sempre foi muito mais minha que do Gustavo. Até hoje eu me pergunto se ele não teria preferido uma cesárea com hora marcada (embora me encha de orgulho quando o vejo argumentar a favor do PN ou quando acrescenta em uma conversa que Vinícius nasceu em casa e usa fraldas de pano, rs…).
Não pude aproveitar muito minha doula querida, por que a verdade é que eu meti a cara e me enfiei nessa história de PD sem grana nem pra Belly Cast (que o Gustavo fez e ficou uma porcaria, rs…).
Zeza estava sempre nas consultas, me examinava muito carinhosamente, explicava as coisas, com um jeito sereno, parece uma mãezona mesmo, atenciosa e paciente.
Fiz três ultras no total. Uma no comecinho, por que levei um choque em um fio desencapado e precisava ver se estava tudo ok. Não vimos nada, rs… cinco semanas. A segunda foi pra ver o sexo, de tanto minha mãe me aloprar pra saber. Por fim a morfológica, que foi premiada com os comentários do ultrassonografista: “Bem, até agora, está tudo bem com o bebÊ. Temos que continuar monitorando, por que existem alguns problemas que só aparecem depois. Mas o cordão está bem longe do pescoço dele” Ãhn? Ah tá! Obrigada por me deixar tranquila…

 III – Plano de Parto
Enrolei, enrolei e não materializei meu plano no papel. Ele ficou no mundo das idéias mesmo. Fez diferença sim, depois pontuo onde eu acho que o plano teria me ajudado. Mas tinha que ter um plano B, um C e um D!!! aaaaahhhhh! Pirei na batatinha! Mas descolei uma autorização pra equipe me atender no açougue, ops, digo, hospital local (caso fosse necessário). Pediatra eu não achei uma até hoje e a busca cômica, pra não dizer trágica. O cara que eu contactei topou de primeira e pareceu um entusiasta da causa. Mas a verdade é que ele não sacava nada de PD e estava imaginando uma megaestrutura para emergência e transporte, se pá até um helicóptero UTI no meu quintal, rs…
Quando falei que não queria ele presente, apenas um sobreaviso (remunerado, of course), ele emburrou, me esculachou, disse que era “muito mais profissional do que um mero expectante de luxo” e desejou boa sorte. Eis aí o X da questão: a maioria dos médicos se acham meros expectantes de luxo.
Desisti de Pediatra, desisti de enlouquecer querendo deixar tudo planejadíssimo, passo a passo, tipo receita de bolo. A gestação estava chegando ao fim e me conformei que, se precisasse de transferÊncia antes da equipe ou se o bebê precisasse ser transferido, eu ia ter que estufar o peito e dar a cara a tapa em uma Emergência qualquer.

IV – Reta final
No último mês sai de Licença Gestação e me mudei. Comecei oficialmente a arrumar o ninho. Só que a gente cisma em comparar uma gestação com a outra e eu esperava entrar em TP pelas 39 semanas. Mas desde as 38 o povo já começa a encher o saco: Ai, que barriga baixa, acho que nasce logo!!! O que? Não nasceu? pRa quando é? E se passar do tempo?

V – Pródromos
Mas essas cobranças contagiam e eu já não atendia mais o telefone. Em vez de me desligar e deixar acontecer, comecei a agir de forma fria e calculista, ho ho ho… Fazia faxina, caminhava, fui bater fotos pra me despedir da barriga, fiz belly cast em casa, briguei com o marido, li, li, li… Comi comida apimentada, levei o filho pra andar de bicicleta, até que resolvi atacar o maridão em uma madrugada pra ver se o negócio engrenava. 39 semanas e 3 dias. Bem, passei a ter mais contrações e pela manhã começou a sair um tampãozinho… NA noite seguinte estavam até ficando boas as contrações e continuava vindo mais tampão. Só que eu dormia e passava. Prodromei por três dias e na manhã de terça feira acordei com contrações relativamente fortes, mas mantive o meu silÊncio pra ninguém me encher o saco. Era dia de consulta e tínhamos duas horas e meia de estrada pela frente. Pra completar, o pneu estava furado.DSCF1250_20130927171315661 Eu bem que pensei que o bebê nasceria em Porto Alegre. Fui de casa até o consultório cronometrando contrações. Mas quando cheguei lá, elas sumiram.
Conversamos as últimas coisinhas, Zeza me pesou, aferiu minha pressão, Ric propôs um toque, ok, lá fomos nós. Eu juro por Deus que quis quebrar o dedo da mão dele que estava apoiada no meu joelho. Doeu pra cacete. Fiquei com raiva, mas não falei nada. Um cm, bebÊ insinuado, colo anterior. Zezé notou e tentou me confortar. Sai da consulta irritadíssima, com muita cólica. Sentia vontade de chorar. Fui embora tendo muitas contrações mas me recusava a aceitar que entraria em TP por causa de um toque. Meu primeiro filho nasceu depois de um toque. Será que iria acontecer de novo? Será que eu nunca entrava em TP espontâneamente? Será que um toque seria capaz de induzir ou adiantar um parto se não fosse a hora do bebÊ? Fiquei de mau humor o resto do dia. NA viagem de volta, cheguei a ter quatro contrações em dez minutos, mas não falei nada pro Gustavo. Ele me deixou em casa e foi trabalhar. Eu limpei o banheiro de novo e fui pro chuveiro. Por que aceitei fazer o toque? Por quê???? Saí do banho e decidi ligar pra Zezé, que conversou comigo e me acalmou. Percebi que durante os dez minutos em que conversamos não senti nenhuma contração. Decidi descansar mas, por via das dúvidas, liguei pro marido encomendei uma pantufa e um tapete pro banheiro.

VI – O trabalho de Parto
Gustavo chegou e me trouxe uma pantufa que não serviu. Pediu que fosse ao mercado com ele pra trocar por outra. Levantei com raiva, querendo mandar ele pr’aquele lugar, pois queria descansar um pouco. OK, vamos lá (continuava sem contar pra ele que estava com contrações). Ao descer do carro, no estacionamento, veio uma bem forte, que me fez parar. Ele e meu filho entraram e só depois notaram minha falta. Ele voltou e perguntou o que havia. Eu disse que era só uma contraçãozinha e seguimos em frente. Escolhi um chinelo e fomos na casa da senhora que tinha pego umas roupas minhas pra lavar. O caminho era esburacado e o carro balançava. Eu cronometrava escondida, no celular. Cada buraco era um flash, rs… Viemos embora e eu continuava me esforçando pra agir naturalmente. Dei banho no meu filho, vesti o pijaminha dele, deitei na cama e fomos ler uma historinha. DSCF1259_20130927170811893Quando ele dormiu, decidi tomar um banho demorado. Ralhei com o Gustavo, chorei, falei que achava que estava em TP e que se ele quisesse, ainda dava tempo de participar. Larguei o Parto Ativo aberto na parte das massagens e fui pro banho com o celular.
Cronometrei nem sei quantas vezes, lembrava da Rebeca falando que enquanto cronometrasse é por que não era TP (detalhe era a fotinho do orkut com carinha da Rebeca falando comigo com uma vozinha que eu inventei pra ela, rs…).
Percebi que as contrações se intensificaram, notei que estava meio grogue, aérea e resolvi ligar pro meu marido (não queria gritar por ele, pra não acordar meu filho nem minha mãe). Ele veio e eu entreguei o celular pra ele cronometrar. Mas ele não sabia como fazer, quando eu perguntava a frequÊncia ele não saia dizer e aquilo foi me deixando nervosa. Eu ainda lembrava do toque. Mas percebi que era aquilo mesmo, que chegara a hora e que Vinícius iria nascer.
Saí do banho pedi para o Gustavo ligar pra Zezé. Conversei com ela, mas não consegui falar muito. Passei pro Gustavo e eu não sei o que ela disse, mas ele começou a fazer massagem nas minhas costas (eu estava debruçada sobre a mesa da cozinha) e me ofereceu suco ou chá (senti vontade de rir na hora, Abençoada Zezé). Ligamos para o Ric e avisamos que podiam vir. Eram cerca de onze horas da noite.

VII – O parto
Daí pra frente o negócio engrenou de vez. Gustavo continuava tentando cronometrar e me perguntava o que foi cada vez que eu gemia (foi uma contração, po**a! Não… foi o quÊ? Dor de dente? rs… fui uma parturiente muito mal humorada, rs… Para de cronometrar essa me**a, kkkk). Decidi que ficaria na sala, e não no quarto como planejara inicialmente. Ele arumou o colchão no chão, colocou o plástico, uma colcha, almofadas e fui eu pro chão. Ficava em posição de lótus entre as contrações e na hora que elas vinham pedia pra ele puxar minhas mãos pra frente, ficando em posição genupeitoral, balançando os quadris pra frente e pra trás. Lembro de ter levantado pra caminhar e ao me apoiar no sofá para outra contração ouvi a voz e visualizei aquela propaganda do discovery home and health quando uma parturiente diz: ainda bem que inventaram a peridural. E fiquei viajando nisso, com raiva por esse pensamento ter invadido minha introspecção. “Que anestesia o que, nem dói tanto assim”…
vinha outra…
“tá, dói… é, pensando bem, como esperar que uma pessoa que passa a gestação inteira escolhendo papéis de parede e sapatinhos, que acreditou no “pó fica tranquila, querida” do GO na primeira consulta vá passar por isso e achar lindo?”
“Opa, melhor me concentrar de novo, a flor, pense na flor.”
Daí me veio a discussão da lista: lótus? Orquídea? Lírio? Fiquei com a Laelia Purpurata…
“Vocalize, abra bem a boca. Solte o ar lentamente, vibre”
O Gustavo tocou um lugar do meu quadril, nas margens do sacro, que fez outra contração começar imediatamente.
“Nunca mais toque aí! Tô com frio, vou pro chuveiro”
Me levantei sentindo o corpo mole. Meu queixo batia. Pedi o aquecedor e liguei o chuveiro beeeem quente. Frio, frio… minha cara carrancuda no espelho, com a testa tão contraída que chegava a doer, olhos semicerrados… Que tremedeira… Peraí! É a transição! Claro!!!
Saí do chuveiro e sentei no vaso. Pedi um suco. Gustavo trouxe mas abriu a porta na hora errada. Mandei fechar. Trinta segundos depois abro a porta com a cara mais normal do mundo, tomo o suco e digo: acho melhor encher a banheira. Ele disse que parecia uma maluquisse. Uma hora abria a porta e eu grunhia como se estivesse virando o incrível Hulk. Trinta segundos depois parecia uma professora de primário falando com os aluninhos, rs…
Ele colocou a dita cuja no box e eu ajudei a encaixar certinho. As contrações não doiam mais e eu achei uma frequência de vocalização ótima, que fazia toda a dor sumir.
Gustavo deixou a banheira enchendo e eu disse que achava melhor colocar a mangueira com água da rua também (sentia uma pressão no reto, muita vontade de fazer cocô.) Ele voltou da cozinha com o celular e uma mensagem do Ric (passamos de Torres). Significava que em menos de meia hora estariam ali. Era 1:57. Na contração seguinte minha bolsa estourou. Foi incrível (não ouvi ploft). Eu disse: Gustavo, a bolsa estourou!
Ele: tá, e agora?
Eu: Liga pra Zeza, diz que estourou e que o líquido está claro.
Percebi que estava puxando o porta toalhas cada contração e que a vocalização mudara, era um gemido de força. Resolvi me tocar e pude sentir a coisa mais macia do mundo, cerca de dois cm após a entrada da vagina. Sem dúvida, eram os cabelinhos dele. Pulei pra dentro da banheira e disse: Esquece a mangueira da rua Gustavo! Deixa assim.
Quando abri a porta dei de cara com a minha mãe. Ela disse que o João tinha acordado e que o Gustavo estava com ele por que ele não queria ficar com ela. Eu respondi: Mãe, não me deixa nervosa. ElA fez uma cara tipo: Mas eu não fiz nada!!! rs… e realmente não tinha feito!
Fechei a porta e entrei na banheira. Mais um puxo, eu escancarava a boca e vocalizava um sonoro e longo aaaaaaaaaaa. Foi muito legal, era instintivo e bonito, parecia um canto. Minha mãe disse depois que o João perguntava o que era isso e que o Gustavo disse que era o mar… kkkkk querendo enganar o guri… a mãe disse que ele respondeu que não era o mar não e então ela disse: Esse som é a mamãe cantando para o teu irmãozinho chegar. Eu nem me liguei em chamar ele pra ficar comigo. Na verdade, não chamei ninguém. Eu estava muito conectada com meu corpo, com o bebÊ, visualizava um túnel, via como se estivesse no lugar dele. Estava sozinha no banheiro e assim estava ótimo.
Chamei minha mãe e pedi uma peneira. Segundos depois a vejo entrar no banheiro com uma cadeira. “que cadeira é essa, mãe?” “Ué, não me pedisse uma cadeira?” “Não, mãe, uma peneira!!! tem na segunda gaveta da pia”.
Ela trouxe. “posso ajudar com mais alguma coisa?” “pode! Sai e fecha a porta”
Na outra contração, soprei a água e fiquei vendo o reflexo na superfície… Estava vindo outro puxo, ele ia nascer. Me ajoelhei para ampará-lo, mas quando a contração veio, precisei ficar em quatro apoios de novo. Pensava: preciso me ajoelhar, preciso pegar o bebê. Meu períneo começou a queimar. Eu queria tocar, mas não conseguia sair daquela posição.
A voz da Zezé vinha na minha mente dizendo: não segura o teu parto, deixa nascer!
Eu pensava: nossa… ele vai nascer e a equipe não chegou. Seremos só eu e ele… Não vou falar nada, vou amparar o bebê e pronto.
Estou me preparando para a próxima força quando ouço a voz do Ric: Chegamos!!!
Na porta vejo a carinha dele e a da Zezé atrás.
Na verdade, desconcentrei. Sei lá, foi um misto de alívio e sei lá o que… Gritei: Vai nascer! Ricardo pediu pra eu virar pra ele poder ver o bebÊ. Mas eu estava paralizada naquela posição. Disse: não dá! Está queimando!
Ele pôs a mão na água e tocou a cabeça do bebÊ: é, a cabecinha está aqui, vira…
Eu repeti que não conseguia e gritei, tá vindo outra! Nasceu a cabeça.
Vai nascer! Agora!!!
Fechei os olhos e ouvi o chorinho mais lindo do mundo, bem alto. 28 de setembro, 2:40h. Zezé me ajudou a levantar enquanto Ricardo segurava o bebÊ. Passei a perna sobre o bebÊ (e o Ricardo. Não cresce ma-ais. :P). Ele me entregou o Vini e chamou a Zeza.
Foi incrível, mágico e sublime. Eu chorava e repetia: meu amor!!! ele chorava no meu colo, rosadinho. Lindo… Nossa, a sensação é indescritível, parece que o coração vai explodir de amor. E o cheirinho doce, o calor do corpinho escorregadio. João Vítor veio ver, Gustavo também. Depois me contou que não acreditou quando o médico abriu a porta e me ouviu gritando VAI NASCER!!! Como assim? rs..

VIII – Primeiros minutos
911783_648766265140926_759874244_nUns dez minutos depois fomos para a cama. Ele grudadinho em mim o tempo todo. Não abriu os olhos como eu tanto sonhei… Só espiou de cantinho e fechou de novo. Mamou menos de 20 min após o parto, com o cordão ainda ligado. Zeza chamou o Gustavo pra cortar o cordão e, embora eu inicialmente quisesse aguardar a placenta dequitar pra cortar o cordão, nem me manifestei, por que estava demorando pra dequitar e a coliquinha estava me incomodando. Mas eu gostaria de ter esperado. Talvez se tivesse feito o plano de parto, a Zezé pudesse ter me lembrado do que eu desejava.
Acho que quase uma hora depois a placenta saiu, nem sei. Sei que a Zeza achou melhor tracionar (ela já estava solta, só não tinha saído ainda). Guardamos a placenta e plantamos com uma muda de Ipê amarelo dos dias depois, no quintal da nossa casa.
Tive duas pequenas lacerações de mucosa, que não renderam912919_648768461807373_1299521031_n pontos e três dias depois nem existiam mais.
Depois da saída da placenta e de ter mamado bastante, Vinícius foi pesado e medido, muito carinhosamente pela Zeza. 51 cm, 3,375 kg.
Eu nem tinha separado roupa nenhuma pois minha intenção era deixá-lo só de fraldinha, em contato com minha pele. Mas estava meio frio e elas escolheram uma roupinha enquanto eu comia (estava morta de fome!). Segundo o Ric, ficou parecendo um ser de outro planeta, rs…
O João Vitor ficou cercando, foi chegando, se aproximando e no final, dormiu do lado do irmãozinho. Nunca vou esquecer a felicidade que eu senti, vendo os dois deitadinhos lado a lado, sentindo meu corpo cansado mas sem conseguir dormir. Senti vontade de pular de alegria.

IX – A certidão de nascimento
Bem, se teve uma coisa que me aborreceu muito foi a história da certidão. Logo no dia seguinte, menos de doze horas depois do bebê nascer, Gustavo foi ao cartório acompanhando de duas testemunhas: um colega nosso de trabalho e a minha fisioterapeuta. A tabeliã se recusou a registrar a criança por não haver DNV. Disse que o cartão do pré natal e caderneta de saúde não significavam nada e que sem DNV não iria registrar pois havia uma regra dos cartórios de Santa Catarina que não permitia o registro sem DNV. Ele veio embora com a cara no chão eu me mordi, peguei o bebê e fui no cartório. Perguntei se o cara não lembrava que eu tinha ido ali e perguntado sobre o procedimento para registro de uma criança nascida em casa e que ele mesmo me dissera que bastava vir o pai e duas testemunhas maiores de 18 anos. Como agora se recusavam a registrar meu filho? Ele veio com o papo da norma de conduta de SC e blá blá blá. Eu disse que nenhuma norma estadual poderia de sobrepor ao ECA, uma lei federal.
A tabeliã se levantou e fechou a porta da sala dela na nossa cara. Eu disse que procuraria o conselho tutelar. Meu marido ainda perguntou se se ele voltasse ali depois de 12 anos, com a criança e duas testemunhas eles registrariam e o cara respondeu que sim, nesse caso registrariam. Quando disse que nascer em casa era a coisa mais comum do mundo o cara respondeu debochadamente que pra ele não.
Sai com o bebÊ no colo e a cara no chão, com vontade de chorar. Fui no conselho, liguei pro plantão mas pensei comigo: vou passar no posto de saúde e conversar com as gurias. Elas foram super atenciosas, tentaram conseguir uma DNV. MAs o fato é que não conseguiram por que a própria responsável pelo setor na capital do estado disse que não havia necessidade de DNV. Resolvemos ir ao Ministério Público.
Com cinco dias de vida, Vinicius estava comigo, depondo para uma acessora ou estagiária que me perguntou por que eu optara por ter o parto em casa, se eu seguia alguma SEITA!
Como o material cirúrgico foi esterilizado?
Com o que eu cortei o cordão? (com uma pedra lascada!!!!!)
E quis encerrar o depoimento no fim do relato do parto. Daí eu questionei: sim, mas e a parte do cartório, o fato de se recusarem a registrar o bebÊ, não é por isso que estamos aqui? Daí ela resumiu o meu constrangimento no cartório em duas linhas.
A Promotora chegou conversamos um pouco. Ela contou que tinha uma amiga que parira em casa com as meninas do Hanami e que ela mesma havia tentado o Parto Normal mas que sofrera por 12 horas e não teve dilatação, tendo que ser operada. Me pediram um atestado do médico que atendera meu parto.
Saí de lá com a voz do Raul Seixas cantando na minha cabeça: tem que ser selado, registrado, carimbado…
Depois é que minha ficha caiu e que percebi que eu estava lá justificando meu parto e provando que o filho era meu, não me queixando do cartório. Eu estava fazendo o que a tabeliã deveria ter feito, caso desconfiasse da origem da criança (caso eu não morasse em uma cidade de 6 mil habitantes onde todo mundo se conhece sabe que eu estava grávida).
Mas ela não fez, nem pegou meus dados pra apresentar no MP como deveria ter feito, nem avisou o conselho tutelar, nada, simplesmente negou um direito fundamental do cidadão e me humilhou. Se eu fosse uma maníaca sequestradora de bebês, a esta altura estaria longe.
Juntei o atestado, umas fotos grávida e uma na banheira logo após o parto que até hoje não sei quem foi que bateu e é a única foto do parto que eu tenho. Dias depois tivemos uma audiência com o Juiz.
Só no dia 7 de dezembro a certidão de nascimento foi emitida. E a DNV? A guria do cartório solicitou e preencheu… Declaração de Nascido Vivo… bem, pra mim parece bem vivo, e pra você???

X – Pro próximo parto
No próximo eu pretendo escrever um plano de parto. Pretendo amparar o bebê eu mesma e lembrar de colocar velas no banheiro, pra uma iluminação mais legal. Se estiver no clima, música, mas acho que vou de silêncio de novo, adoro o silêncio. Pretendo chamar meus filhos pra verem o irmão nascer (até hoje João Vítor diz que o médico chegou pra fazer o irmãozinho nascer… como disse o Ric: se eu não chego na hora esse bebÊ não nascia, rs…). Pretendo aguardar a placenta dequitar pra clampear o cordão. Vou escolher uma roupinha pro meu filho não ficar parecendo um astronauta na primeira foto da vida, rs…Vou no cartório na finaleira, vou chamar a tabeliã e bater uma foto do lado dela, grávida.
Achei a inicial que o MP escreveu muito legal. Não sei se foi a promotora ou a acessora, mas foi bem fundamentada, colocaram recomendações da OMS para priorizar o parto natural, fizeram uma breve diferenciação de parto natural e normal, bem interessante. Tomara que alguem tenha se contagiado!
E a peneira? Bem, acho que até hoje minha mãe não entendeu pra que eu pedi a peneira.
Mas a presença da minha mãe foi boa. Pra ela e pra mim. Ela disse que me achou muito madura e sinto que se orgulhou muito de mim. Também percebi que a ajudou a digerir o parto dela.

E, Ric, a raiva pelo toque passou, tá? Acho que o toque foi meio que um acordo tácito. Eu não falei, mas estava ansiosa e meio que forçando a barra pra engrenar um TP. Talvez por isso tenha aceitado tão facilmente. Não sei… Mas isso me fez pensar, como a gente cede, a gente muda. Fim de gestação é delicado. Imagina se fosse uma equipe padrão. Como discutir com uma equipe na hora P?
Mas, no próximo parto, vai ser sem toque, rs…
A equipe, se possível, vai ser a mesma, pra vir dar a benção pro recém nascido, por que tenho certeza que esse nasce antes de chegarem.

E que venha o terceirinho! Feliz aniversário, meu alemãozinho levado! ❤

Relato do meu primeiro parto – o nascimento de JV

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Resgatado das profundezas obscuras do Orkut, eis aqui o relato do meu primeiro parto, o nascimento de João Vítor, ocorrido no dia 21/12/2007, exatamente como escrevi e publiquei na ocasião (dia 04/01/2008). E lá se vão quatro maravilhosos anos! No final estão minhas observações atuais.

Nosso primeiro encontro

Relato do meu parto normal de cócoras!

Ficou enorme gente, mas quis detalhar bem pra vcs! espero que gostem! Beijos!

No dia 18/12/2007 fui para Florianópolis, a fim de realizar minha consulta obstétrica das 38 semanas e ficar por lá mesmo, esperando meu filho nascer. Como muitos já devem saber, eu tinha dois “planos”. O preferido seria meu filho nascer na DPP (dia 28/12) ou depois, para que a carência do meu plano estivesse encerrada e eu pudesse tê-lo em uma clínica de parto humanizado, com banheira, quarto exclusivo onde eu passaria o pré-parto e o parto, som ambiente, enfim, um sonho. O plano B era pro caso de o JV resolver pintar um pouco antes. Por isso fui pra Floripa com 38 semanas. Qualquer coisa correria para o HU, do qual tinha excelentes referências, além de ter lido lindos relatos de partos ocorridos naquele hospital. Pra completar, meu G.O. trabalha lá também. O principal pra mim era um parto com o mínimo de intervenções possível.

Na consulta, foi feito o primeiro exame de toque da gestação (aliás, não senti nadinha! Nem uma dorzinha, incômodo, NADA!). Meu colo estava alto e sem dilatação alguma. O G.O. comentou que talvez o JV desse as caras só no ano novo. Claro que fiquei felicíssima! Por mim, teria ficado mais um mês grávida! Amei minha gestação! Foi tudo maravilhosamente perfeito!

Fui pra casa da minha vó. Meu marido ficou comigo mas voltou pra Joinville no fim da tarde do dia 18, afinal, precisava trabalhar. Teoricamente, trabalharia dia 19 e dia 20 voltaria pra ficar conosco. Mas foi convocado pra trabalhar no dia 21 pela manhã. Então, ficou por Joinville mesmo.

No dia 20 pela manhã, quando fui fazer xixi, percebi uma sujeirinha rosada no papel. Olhei e lé estava ele: o tampão “se fue”! Comecei a fazer as coisinhas que faltavam, como o enfeite de porta do JV. Liguei pro GO só por “desencargo de consciência” (maldita hora que falei pra minha Vó a super novidade. Ela e minha mãe me alopraram até eu ligar pro médico).

Ele me disse o óbvio, exatamente o que eu tinha explicado pra elas: se não tem contração regular, se não saiu líquido, se não há um sangramento expressivo (eu estava com um borrãozinho de café), não tem por que preocupar-se. Mas a mulherada me encheu o saco. Minha vó, que teve cinco PN´s, dizia que eu deveria fazer cesárea. Minha mãe repetia como um papagaio que eu era louca, que falta de oxigenação pode causar danos ao bebÊ, que meu tio era deficiente mental pela demora no expulsivo. Peguei minha tinta, meu biscuit, mandei todo mundo se catar (pra ser educada na internet) e me isolei na cozinha, onde fiquei modelando e me distraindo. Dormi de tarde, pela noite continuei com o artesanato. Eu estava sentindo leves cólicas, como cólicas menstruais. Nem tinha como medir intervalo, pq eu nem sabia se aquilo era uma contração. Era tão suave! Mais pro fim da noite, depois da janta, senti que as coliquinhas haviam aumentado um pouco. Pelo menos eu as percebia melhor. Lá pela 1:00h fui deitar. Eis que, cinco minutos depois de ter deitado, sentei num pulo. A cólica veio e dessa vez, doeu. Achei que estava com dor de barriga (sim, pq parecia isso, uma baita dor de barriga, tipo quando vc toma chá de sene, rs…).

Fui até o banheiro, fiz o número dois normalmente. Tentei dormir de novo e assim que deitei, pimba! Voltou a dor! Sentei e pensei: “será possível? Bem, vou ficar aqui sentada e tentar monitorar os intervalos.” Resultado: TUDO ERRADO! 10 minutos, 15, 7, 3, 5, 8… algumas duravam 40 seg., outras 20. Pensei: “OK, são os pródromos! Que bom! É um ótimo sinal.” Continuei sentada e feliz, anotando o horário de cada contração e a duração. Mas sabe o que doía? Era o meu reto. Não tinha também essa de dor que começa nas costas e vem pra frente. Era uma cólica que começava e ia aumentando gradualmente, aumentando, eu respirava profundamente e relaxava, deixava ela vir. Sentia essa dor no reto que incomodava. Quando tava assim, doendo de fato, ia diminuindo, indo embora e sumia! Assim, como mágica. Juro que não era nada assim, de gritar ou fazer ai… nada! Era uma cólica mesmo, com uma dor no reto pra completar e que sumia quando começava a doer.

Assim passei a madrugada toda. Quando vi, era 6h da manhã do dia 21/12 e eu tinha uma folha de caderno lotada de anotações. Minha vó acordou, eu tentei disfarçar, inclusive mantinha uma conversação normal durante a contração. Mas eu precisava dormir. Só que não conseguia. Eu percebi que, todas as vezes que caminhei até a cozinha (inclusive me deu uma fome tremenda às 3 horas da madrugada) ou ao banheiro, as contrações se aproximavam. Comecei a questionar se eram pródromos mesmo, se deveria avisar meu marido para que viesse. Minha vó foi ao mercado e meu tio (o que tem problema) começou a me aloprar. Daí é que o negócio apertou. Fiquei nervosa e acordei minha mãe, para que tomasse conta do Márcio porque eu não tava podendo me estressar. Resolvi ligar pro médico. Ele disse que estava de plantão no HU e pediu para que eu fosse até lá. Perguntei se ele achava que eu deveria comunicar meu marido. Ele respondeu: “esquece o marido agora menina! Vem pra cá pra eu te ver e depois você liga pra ele.” Tomei um banho e fui com minha mãe. As contrações continuavam naquela… vinham e iam… quando eu achava que ia doer pra valer, acabavam. Apesar de que eu já não falava na hora da contração. Apenas respirava lentamente, bem fundo e relaxava.

Cheguei no HU as 11:00h. Na hora que ele me pediu pra deitar pra fazer o toque eu perguntei: tem que ser deitada mesmo (porque deitada doía sim! Deitada não dava pra ficar!)? Ele disse que seria rápido. Deitei e veio a contração. Respirei fundo (foi punk!). Ele esperou passar e fez o toque: 3,5 cm. Levantei o mais rápido possível! De pé o mundo era beeeeeem melhor (rs…)! Ele me olhou e eu disse: “já sei, é pra dar uma voltinha, né?” Ele disse: “isso mesmo. Você já almoçou? Vai dar uma volta, come alguma coisa, volta daqui a uma hora.”

Lá fui eu e minha mãe. Ela já estava branca e muito séria! rs… quando vinha a contração eu parava de andar, me apoiava e respirava. Ela ia embora e eu voltava a andar. Tomei um expresso com leite e um pedaço de torta maravilhoso. Comi bem devagar, parando pra respirar em cada contração. Voltamos pro hospital as 12:20h. Quando eu cheguei, ele havia saído! Minha mãe estava à beira de um ataque de nervos! Eu , numa boa, sentei um pouco (ai que sono!!!) e fiquei ali, de perninha de índio, respirando bem fundo, sentindo meu corpo. Eu já percebia quando ia começar e sabia quando ia passar. Uns 40 min depois, lá fui eu pro toque de novo (e tive que deitar de novo. Dessa vez eu gemi quando a contração veio). 6,5 cm!!! Ele sorriu e disse: “muito bem! Pode ligar pro marido, de hoje não passa!”

Minha mãe ligou e eu fui pro chuveiro (ô coisa boa!). Me deram uma camisolinha daquelas (pelo menos era transpassada e não ficava de bunda de fora, rs…) e fui pro pré-parto. No HU cada quarto tem dois leitos, separado por uma divisória. A enfermeira veio e me recebeu surpresa, comentando que eu estava super bem e tranquila pra quase 7 cm. Me convidou pra conhecer o local e as salas de parto. Fomos caminhando e conversando. Ela me mostrou a bola, ensinou a usar, me mostrou as salas de parto (ambas com cadeira para parto de cócoras), me ofereceu uma ducha (que eu aceitei na hora!!!). Ela colocou uma cadeira e abriu a água bem forte! Eu sentei e deixei a água quente cair na minha barriga. As cólicas quase sumiram! Eu sentia a contração, mas a “dor” era mutíssimo menor! Ela disse que eu podia ficar lá o tempo que quisesse mas que, se sentisse vontade de fazer força (ou de fazer cocô) deveria chamá-la. Fiquei lá muito tempo. Minha mãe saiu pra comer e voltou e eu estava lá ainda. Resolvi sair do banho e bater perna…quase cavei um buraco no corredor do pré parto rs… só eu andava, só eu usava a bola, só eu tomava banho. Todo mundo tava deitada, gemendo… e quando a contração vinha, eu me acocorava segurando na barra.

Umas 15h foi feito outro toque: um pouco mais de 8 cm… e meu marido que não chegava? Fiquei pela cama mesmo, sentada sobre meus calcanhares, com o tronco À frente. A enfermeira trouxe um Puff pra eu me debruçar. Minha mãe massageava a região do meu sacro (pé da coluna) do jeito que a enfermeira explicou. De tempos em tempos ouviam os BCF e mediam minha pressão. Durante a gestação era 10×7, no TP ficou em 12×9. Eu bebi muuuuuuuita água! Não tive fome, mas tinha muito sono. Lá pelas tantas a enfermeira perguntou se eu já havia ouvido falar em analgesia de parto. Respondi que sim. Ela perguntou se eu queria. Disse que não, afinal eu sentia que já estava acabando e não sentia tanta dor assim. Aliás, como em um texto da Xícara de Luz, nem sei se dava pra chamar de dor… deveria ter outro nome. Umas 17h ou 18h cheguei à dilatação total com a bolsa íntegra. Até então estava achando ótimo pois a bolsa poderia estourar durante o expulsivo que seria melhor pra mim e pro JV.

Meu marido chegou em seguida. Minha mãe saiu e ele ficou comigo. Chegou um outro enfermeiro, muito querido. Eu havia posto um pano no chão e estava lá agaixada, agarrada nos pés da cama. Ele veio, trocou por um pano limpo, trocou minha camisola, colocou a escadinha atrás de mim, orientou meu marido a sentar e explicou que era pra fazer massagem nas minhas costas quando a contração viesse e me ajudar a sentar quando passasse. Então meu marido ficou no degrau mais alto e eu numa almofadinha no degrau mais baixo, entre as pernas dele. Lé pelas tantas, resolvi andar de novo. O médico veio me ver. Eu não sentia a mínima vontade de fazer força, mas parecia que eu iria defecar. Ele fez o toque, o nenem tava descendo muito devagar. Eu disse: “Dr., vamos estourar essa bolsa logo? Estou tão cansada (ai que sono!!!).” Ele respondeu que me daria mais 20 minutos e voltaria depois. Caminhei saltitando (tipo numa rave, rs…) pra ver se o bebê descia ou se a bolsa estourava. Comecei a fazer força. O enfermeiro viu e me disse que não adiantava fazer força se eu não estivesse com vontade. Eu iria me cansar e o bebê não iria descer.

O médico voltou e como não tinha descido mais, perguntou se eu queria mesmo romper a bolsa. Respondi que sim. Ele o fez. Não doeu nadinha. Continuei caminhando, tomei outro banho. Nada de puxos. De repente, umas 19:30h, a vontade começou. Na hora da contração não senti dor alguma, só vontade de empurrar. E empurrei com muita força. Gritei pelos enfermeiros em seguida. Vieram com o médico que tocou e respondeu sorridente: é, vamos pra sala de parto! O enfermeiro trocou minha camisola e fomos todos caminhando pra sala de parto. Eu subi na cadeira. A luz do fim da tarde entrava pela porta, inundando a sala com uma linda luz alaranjada. O GO pediu para que a luz fosse ligada bem suavemente. Ficamos num ambiente de iluminação bastante agradável. Orientado pelo enfermeiro, meu marido subiu na cadeira também. Ele ficou sentado e eu fiquei com as axilas encaixadas nos joelhos dele, acocorada. Na hora da força ele me fazia massagem. Vieram duas forças e depois parou. Esperamos, esperamos… nada. Eu estava tão cansada…

O GO monitorou os BCF. Na hora não percebi nada, vi que estavam um pouco mais lentos e associei ao local onde o bebê estava, provavelmente um ponto onde o cordão estivesse sendo comprimido (aliás, nem sei se nasceu com circular ou não, vou perguntar pro GO na próxima consulta). Depois é que me liguei que estava lento FORA de uma contração. Foi tudo muito rápido. Lembro que ele falou: “eu vou te dar um sorinho, ok? Só pra aumentar a frequência das contrações, porque elas pararam e não podemos ficar aqui muito tempo.” Eu perguntei se iria doer (afinal, a ocitocina nesse sorinho tem fama de ser cruel!). Ele afirmou que não, só me daria mais vontade de fazer força. Eu concordei. Quando estavam colocando o soro, veio outra contração. Senti uma pressão intensa no períneo. Olhei pra ele e disse: Dr! Vai rasgar tudo!!! Muito calmo ele respondeu: “vai rasgar nada! Se rasgar, vai ser pouquinho! Deixa rasgar.” E veio a força (potencializada pelo soro). A pressão aumentou. Ele disse pra eu tocar que sentiria os cabelinhos do bebê. Toquei. Foi emocionante!!!

Ele ouviu os BCF novamente e estavam mais rápidos. Olhou pro neonatologista e disse: recuperou, né? Daí eu pensei: recuperou? O quê?! Filho, tá na hora de nascer. Veio outra força (tudo imendado, colou uma na outra). Eu gritei muito alto, não por dor, mas pra tentar tirar de dentro de mim a força que eu precisava pra fazer meu filho nascer naquela hora! Ele disse: “isso, pode gritar, fica à vontade! Faz mais uma força bem comprida!” Senti um alívio súbito. A cabecinha havia saído. Senti os ombrinhos escorregando e controlei a força, sentindo-os desprender um a um. As 20:00h em ponto, um calor gostoso “escorreu” de mim e ouvi o chorinho. Olhei pra baixo e lá estava ele! Imediatamente comecei a chorar. Uma emoção tomou conta de mim, uma sensação maravilhosa e indescritível! Eu dizia: “meu filho!” repetidamente e chorava. Nenhuma dor! Só alívio e prazer.

O cordão foi cortado imediatamente (que pena!) e o pediatra o levou para os “procedimentos” ali do meu lado mesmo. Não tirei os olhos um segundo sequer. Ainda não conversei sobre isso com o GO, mas creio que o clampeamento tão imediato tenha sido porque ele nasceu um pouco cianótico (roxinho). Mediu 51 cm e pesou 3,730kg. Me devolveram meu bebÊ e eu já estava deitada. Ele chorava tanto! Conversei com ele e ele me olhou, mas continuou chorando. Quando meu marido o chamou ele ergueu os olhinhos e parou de chorar na hora. Foi lindo. Não mamou na hora… ficou lambendo o mamilo (que engraçadinho). Quase esquecemos de fotografar! Quando o pediatra veio levá-lo eu lembrei e pegamos a máquina no bolso do meu marido. Ainda não acredito que não fotografei o parto, mas é uma memória que jamais se apagará. Nunca esquecerei a sensação maravilhosa, o calor, o chorinho do meu filho e o amor imediato que tomou conta de mim. Não existe no mundo sensação igual! Quero tudo de novo!

Apesar de não ter sentido nenhuma dor, tive uma laceração de segundo grau (mediana). Levaram o JV e meu marido foi junto, acompanhá-lo. Eu fiquei nos pontos, agora com outro médico. Essa parte não foi muito tri não… Não que tenha doído, mas a picadinha da anestesia local é chatinha e teve uma pequena laceração na mucosa perto da uretra e clitóris, uma região muito sensível, que a anestesia não pegou. Mas ali foi tão pequeno que nem precisou de ponto e hoje, duas semanas depois, nem marca tem.

Na sala de recuperação fiquei com o bebÊ e meu marido. Pedi pra urinar e não me deixaram ir ao banheiro. Me trouxeram uma cumadre. Eu pensei: “bem… se eu fizer deitada vai escorrer pros pontos e arder”. Quando a enfermeira voltou, me deu uma bronca pq eu estava “montada” em cima da cumadre, rs… Tomei água e ao chegar ao quarto ganhei um lanche e a enfermeira disse que voltaria pra me acompanhar no banho. Nem precisou ficar comigo. Tomei um banho ótimo e deitei. Mas meu sono sumira! Eu só conseguia olhar meu bebÊ! Ele dormiu até de manhã e acordou pra mamar. Foi preciso muita paciÊncia e ajuda das enfermeiras. Meus mamilos são planos e apesar de formarem bico com facilidade, o JV é muito esganado (rs…) e impaciente. O leite vazava mas ele parecia irritado. Porém a enfermeira surpreendeu-se com minha calma e principalmente em como ele me ouvia quando eu conversava com ele. Resultado: aprendeu rapidinho e mamou quarenta minutos direto. Amamentar é outra coisa maravilhosa e olhar aqueles olhinhos pretos bem fundo, ver o sorrisinho que ele dá quando começa a adormecer no seio, tudo isso é uma coisa tão mágica! Ainda estou encantada com a força do parto, com o sentimento arrebatador que tomou conta de mim e confesso estar espantada ao ver como tenho jeito com criança! rs… Quero mais um!

Feliz ano novo pra todos! Um parto maravilhoso pra quem ainda espera e muito leite!

Ah! Foi tudo pelo SUS gente! Todos no HU são maravilhosos! Estão de parabéns!

E pra esclarecer: Não fiz tricotomia (raspagem dos pelos) nem enema (lavagem intestinal). Aliás, nem se falou nisso…

 Eu e minha paixão

E assim terminou meu relato. Foram mais de cem comentários e elogios na época, de gestantes que queriam um parto igual ou não. Muitas achavam lindo mas diziam não ter “coragem” pra viver um parto natural (mas têm coragem de levar uma injeção de anestésico na coluna, cortar sete camadas de tecido e extrair o bebê de dentro do útero… ok, cada um com seus conceitos).

Hoje, relendo o relato e lembrando de tudo, percebo certas coisas que, na época, não tinha conhecimento suficiente pra notar. Primeiro, acho que não deveria ter optado pelo rompimento artificial das membranas, pois por mais que pareça um procedimento “inócuo”, tem diversos riscos envolvidos, inclusive o de prolapso de cordão (=cesárea na certa) e maior chance de infecção. E é uma intervenção logo, tira o título de “natural” do meu parto. Até a suposta bradicardia poderia ter sido evitada se a bolsa estivesse íntegra.

Depois, penso na mudança de ambiente e na parada de contrações que eu tive. Era ÓBVIO que isso iria ocorrer. A mudança pra outro ambiente provoca isso em função da adrenalina envolvida.

Sobre a ocitocina sintética, embora tenha sido usada no final, eu me arrependo de ter aceitado. Não sei se de fato a bradicardia foi determinante para a conduta ou se era o horário, pois ele nasceu as 20 em ponto, justamente no horário da troca de plantão, tanto é que quem me deu os pontos foi o outro obstetra.

Embora a laceração tenha sido pequena, acho que a ocitocina sintética teve sua culpa, além do fato de, durante toda a pesquisa e leituras sobre parto na gestação, eu só ter chegado até o círculo de fogo, ou seja, o momento em que o bebê coroa. Não sabia como fazer a força (na verdade, não sabia que nem deveria fazer força, apenas deixar que o bebê e a contração uterina fizessem o serviço, reduzindo ainda mais o risco de laceração).

Hoje tenho certeza que o clampeamento imediato foi pressa do neo em ir embora afinal, se estivesse cianótico, o melhor seria ter ficado ligado no cordão e recebendo oxigênio pela via placentária até que pudesse respirar sozinho. Também sei que o lambe lambe de mamilo era o começo da amamentação espontânea e que, e não tivéssemos sido separados naqueles minutos iniciais, talvez não tivéssemos tido tanta dificuldade para iniciar a amamentação.

Por fim, não me perdôo e jamais me perdoarei por ter deixado que fizessem tudo o que fizeram com o meu bebê logo após o parto. Clampeamento do cordão, pesagem, medições, colírio, banho… lembro de ter esticado os braços para pegá-lo logo que nasceu e o neo levou! Colocou em uma bandeja fria de alumínio pra pesar, o esticou depois de nove meses aconchegado em meu útero pra medir, esfregou sua pele delicada, aspirou suas vias aéreas, pingou nitrato de prata em seus olhinhos que queriam apenas ver o mundo pela primeira vez, causando dor e sofrimento, furou sua perna com uma agulha pra injetar vitamina K e nem sei se usaram ou não a sonda anal e oral. Quando deveria estar em meus braços, eu deixei que o levassem e lavassem em uma pia como uma carne de açougue, ignorando seu pranto e ignorando meus mais profundos instintos que me faziam querer pular atrás de meu filho e tomá-lo de volta. Por tudo isso eu jamais me perdoarei.

Por que eu não tive a atitude e a coragem de bancar um parto domiciliar na minha primeira gestação? Bem, talvez a questão financeira tenha pesado muito… A insegurança de uma mãe de primeira viagem também. Mas hoje, depois de ter tido meu segundo filho em casa eu sei que parir e nascer em liberdade não tem preço.