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Monitorização Fetal Contínua – da série Rotinas do Parto “normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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Monitorização Fetal Contínua – da série Rotinas do Parto “normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

Cotinuando nossa série sobre as Rotinas do Parto NORMAL, vamos falar da monitorização fetal contínua. Também chamada de Cardiotocografia, é um exame no qual uma cinta com eletrodos é colocada na barriga da gestante e ligada a um aparelho, que fica monitorando continuamente os batimentos cardíacos do bebê e as contrações do útero. Até aí, tudo bem, parece inofensivo, tirando o pi pi pi irritante e constante e tudo o que a sua imaginação pode fazer por você ao ouvir um ritmo diferente do que aquele que você imagina ser o ideal e claro, o pequeno detalhe de que a cardiotocografia Cópia de Exame de Cardiotocografiaestá relacionada a 40% de falsos-positivos” e, como se não bastasse, o tamanho do trombolho que é o aparelho. Ou seja, não condiz muito com a imagem que eu tenho de um parto ativo. Como você vai deambular, se mexer, ir ao banheiro, entrar no chuveiro, usar a bola ou quem sabe até entrar em uma banheira com um monte de fios conectados a um aparelho super hightech que nem é à prova d’água? Smiley mostrando a língua

Não vai, querida. Com um cardiotocógrafo do seu ladinho, você vai ter que ficar quietinha, deitadinha, só esperando. E isso é muito ruim por si só, concorda? Pra muitas mulheres, o simples fato de estar deitada já faz com que as contrações saiam do patamar suportável. Ficar deitada também é ruim, por que se o que dilata o colo do útero é a pressão da cabeça do bebê, a gravidade pode ser uma super aliada nessas horas e abreviar bastante a duração do trabalho de parto. Além disso, ficar deitada faz com que o peso do útero recaia sobre os grandes vasos que passam por trás dele e comprimir esses vazos. Isso pode reduzir o fluxo de sangue para o bebê, de forma que a posição em que te colocam para fazer o exame pode ser a responsável por causar justamente o que ele gostaria de prevenir: a freqüencia cardiaca fetal não tranquilizadora ou o famoso “sofrimento fetal”.

Daí a mulher está deitada, sente mais dor, o TP não evolui: manda um soro com ocitocina pra corrigir a dinâmica uterina (se já não estava com)! Mais uns caninhos e outro trombolhinho pra carregar ou melhor, outra desculpinha pra te deixarem quietinha. Aí vai, mais dor, contrações mais intensas: ANESTESIA, por favor! Se tiver! se não tiver: socorro! me operem logo! Tensão, medo, dor e compressão dos vasos mais a ocitocina, que também aumenta o risco de redução do fluxo sanguíneo para o feto e bingo! BCF alterado. “Mãezinha, seu bebê está em sofrimento, vamos ter que operar”. Visualizou? Assim se fabrica uma cesárea. É um pacote! Ás vezes, só mudar de posição reestabeleceria uma frequência cardiaca fetal normal.

Mas e aí, como monitorar o bebê? Um velho estetoscópio de pinard ou um portátil sonar doppler resolvem esse dilema. A auscuta intermitente do feto ainda é considerada a melhor forma de acompanhar a vitalidade fetal durante o trabalho de parto de uma gestande DE BAIXO RISCO. Até por que os batimentos cardíacos fetais costumam oscilar, reduzindo durante a contração e voltando ao normal depois dela. Mas pra quem está ouvindo, ouvir o pi pi pi do cardiotocógrafo desacelerando, nossa, deve ser apavorante. Empata qualquer parto.

Só que é um, aparelho caro e está lá no hospital, precisa ser usado para se pagar, mesmo que seja TOTALMENTE DISPENSÁVEL como exame de rotina em gestantes de baixo risco. Então, abre o olho! Até por que se o seu obstetra usa este método de rotina, ele já não deve ser muito adepto ao parto natural. A seguir, um trecho de um artigo que achei na web, muito interessante, por sinal. Os grifos são meus.

“Com a introdução da monitorização eletrônica fetal na avaliação do bem estar fetal, muitos obstetras foram induzidos a acreditar no seu benefício em reduzir a morbimortalidade perinatal, o que não foi evidenciado em ensaios clínicos randomizados. Entretanto, apesar as limitações e problemas com a cardiotocografia contínua, esta ainda é bastante utilizada em alguns centros do mundo, principalmente nos Estados Unidos da América. Esforços recentes têm sido realizados no sentido de desenvolver métodos mais acurados para aperfeiçoar a vigilância fetal intraparto. Dentre os métodos expostos nessa revisão, o exame ideal, isolado ou associado a cardiotocografia, para o diagnóstico correto de sofrimento fetal, deverá melhorar os resultados perinatais sem aumentar a incidência de cesarianas. No Instituto Materno Infantil Prof. Fernando Figueira utiliza-se a auscultação intermitente da freqüência cardíaca fetal como padrão-ouro para avaliação do bem estar fetal durante o trabalho de parto. A utilização da cardiotocografia contínua fica reservada para as gestações de altorisco para desenvolver sofrimento fetal, ou ainda na presença de alterações da freqüência cardíaca fetal pela auscultação com o sonar Doppler. Ressalta-se que os obstetras que utilizam tecnologias mais sofisticadas (monitoramento eletrônico contínuo, por cardiotocografia ou outro método) com essa finalidade devem conhecer em detalhes a fisiologia fetal e as limitações e imprecisões de cada método, para que não indiquem cesarianas desnecessárias. Evidentemente, o treinamento para adequada avaliação do bem-estar fetal intraparto deve fazer parte do treinamento obstétrico, e estudos recentes sugerem a necessidade de aumentar a capacidade dos profissionais neste sentido, com ênfase no treinamento e melhora de suas habilidades. Da mesma forma, os pais devem ser esclarecidos sobre o método de monitoração a ser utilizado, evitando uma falsa sensação de segurança, visto que a utilização de qualquer teste não garante em 100% a não-ocorrência de hipoxia fetal.”  (http://www.actamedicaportuguesa.com/pdf/2008-21/3/229-240.pdf)

A OMS a classifica como Condutas freqüentemente utilizadas de modo inadequado.

Um beijo e não se deixe enganar!

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Tricotomia–da série Rotinas do Parto “Normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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tricotomia 2

Tricotomi o quê? ´Tricotomia, a raspagem dos pêlos feita na admissão hospitalar. Ah… mas o que que tem, grandes coisa raspar meus pelos… hmmmm… vejamos se é ou não um impecilho ao conforto, bem estar e tranquilidade da parturiente.

Pra começo de conversa, a forma como você se depila ou se não depila, é uma escolha íntima sua! Suas preferências, seu gosto. Como seus cabelos, que você corta e pinta da forma que melhor lhe convier. Alguém impor que você deve se depilar dessa ou outra forma, é pra mim de uma audácia quase equivalente a me dizerem que preciso cortar meu cabelo assim ou assado. Além disso, tem mulheres que preferem cera, outras barbeador, outras apenas aparam os pelos, outras preferem deixar ao natural. A pergunta fundamental, da qual devemos partir é: PRA QUE REMOVER OS PÊLOS DO LOCAL?

Se na hora você pensou: “como assim, Cynara? Por higiêne, claro!!!” então, querida, você precisa rever um pouco sua relação com seu corpo e sua sexualidade. Higiêne? Seus pêlos são sujos, agora? Ou será que o que eles representam é que faz alusão a algo “sujo, proibido”. Parou pra pensar que essa relação é meramente cultural? E justamente em uma cultura onde o corpo maduro de uma mulher é contantemente manipulado para parecer-se eternamente com o de uma menina, a remoção dos pêlos genitais pode estar muito além de uma questão de gosto pessoal ou de moda. É um processo recheado de “entrelinhas”. E ter que “se entregar” que uma pessoa que você nunca viu na vida raspe os pelos da sua intimidade em uma momento de extrema vulnerabilidade é completamente simbólico, minha amiga! É submeter-se, ceder, calar, entregar-se, subjulgar-se. “Purifiquem meu corpo para que eu possa adentrar em seu templo asséptico”.

Agora visualize a cena: você, em trabalho de parto, com contrações. Se ainda não passou por isso, acredite: a última coisa que você vai querer é ficar deitada de costas, ainda mais em posição ginecológica. E como se não bastasse o desconforto da posição, vai ter alguém manipulando sua genitália com um objeto cortante (uuuui!). Claro que você vai querer ficar o mais estática possível, por mais que as contrações estejam te torturando. Olha, pra mim, é inconcebível, ainda mais por um argumento que não se sustenta: prevenção de infecções. Há até quem diga que a tricotomia pode ter efeito contrário e provocar microfissuras na pele que serviriam como porta de entrada para infecções.

E se fazem tricotomia para deixar o local onde será feita a incisão limpo, opa! Parei aqui!!! Que incisão? Episiotomia? MAs não esse tal de “pique” que a OMS desaconselha e que já teve sua aplicação rotineira desaconselhada desde 1985? É! Então, se não é para haver corte, para que remover os pelos do local? E se o objetivo fosse apenas esse, pra quê raspar todos os pêlos? Que raspassem apenas no local da incisão, se houvesse necessidade de incisão ou seja: QUASE NUNCA por que conheço profissionais que aboliram a episio há anos e concluiram que ela de fato não justifica e outros que a usam muito cautelosamente, em casos muito específicos (tema de outro post). Assim Tricotomia deveria ser ainda mais rara que a prórpia episio.

Ainda não te convenci da inutilidade desse ritual bizarro? Como se não bastasse ser inútil, ainda causa incômodo, pois quando os pelos começarem a crescer, vai pinicar, coçar, irritar e você lá, com um recém nascido nos braços, vai coçar com que mão?! Brincadeira, mas fala sério, ninguém merece. Enfim, a OMS não recomenda a realização rotineira de tricotomia, não existe fundamentação científica para esta prática e não, você não precisa se submeter à isto.

DICA DO DIA: Amiga gestante, está sofrendo com a maldita cândida? Saiba que ela é super comum na gravidez, por fatores imunológicos, hormonais, dentre outros. MAS o que fazer? passar a gestação inteira se medicando? O que esse assunto tem a ver com esse Post??? PELOS! Sim, seus pelos esixtem e estão ali por algum motivo. Os pêlos protegem a vulva, ajudam a manter a umidade e temperatura ideais, além de servirem como barreira mecânica de proteção. Perceba se sua cândida não aparece depois que se deplila. Se a resposta for sim, que tal mudar o “corte” por alguns meses? Tenta deixar os pelos crescerem no local, depois teste “tosas” alternativas, aparando os pelos moderadamente ou apenas depilando a virilha. Quem me ensinou isso foi o terceiro obstetra da minha primeira gestação e funcionou super bem! Depois da gestação (e do pós parto, pois se no pós parto a gente não consegue nem fazer a sobrancelha, quem dirá depilação íntima, rsrsrs) você volta a se depilar como sempre fez (ou não).

Para saber mais: artigo interessantíssimo!

http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v41n1/v41n1a10.pdf

Rotinas do Parto “normal”– o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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Depois de um tímido início e um abandono de quase um ano, vou voltar a postar neste espaço. Sei que ainda devo o relato do Nascimento de Vini, mas isso vai ficar pra outro dia. O fato é que uma pessoa muito querida está grávida e cheia de dúvidas. Outras pessoas de quem também gosto muito brevemente irão se aventurar nesse universo surpreendente que é a maternidade e euzinha mesma já estou pensando seriamente em produzir o terceirinho portanto, resolvi publicar uma série de posts esclarecedores e FUNDAMENTAIS para toda grávida que se ARRISCA em dizer que quer um parto normal hoje, 2013, no Brasil.

Pra escolher o que queremos, precisamos conhecer exatamente quais nossas opções, certo? E o hit do momento é o tal parto humanizado. MAs o que é um parto humanizado afinal? Primeiro, vamos nos situar e esclarecer o que é um PARTO NORMAL, que de normal, minha filha, não tem NADA. Papo de cesarista? nããããão… calma que tudo se explicará.

O chamado parto NORMAL oferecido (nem tanto) pela maioria dos hospitais e profissionais é na verdade, uma série de procedimentos MÉDICOS que culminará com a extração vaginal de um feto, que passará a se denominar neonato. Você sabe que procedimentos são esses e para que ele servem (se é que servem para alguma coisa)? Como não sabe?! Você PRECISA SABER pois certamente é o que farão com VOCÊ, com o SEU CORPO, com o SEU FILHO.

Como a lista é grande, acredito que cada procedimento mereça um post específico. Então segue a lista dos procedimentos “de rotina” (que são feitos em todas as parturientes que chegam ao hospital, sendo ou não necessários).

  • Tricotomia (raspagem dos pelos)
  • Enema (lavagem intestinal)
  • ISolar a mulher, impedindo-na de ter o acompanhante que escolher (isso é lei, minha gente, desde 2006)
  • Exames de toque sucessivos, muitas vezes por mais que um examinador
  • Monitorização fetal contínua
  • Sorinho (com ou sem pitocina)
  • Jejum, de água e comida (fala sério, tortura da braba)
  • Imobilização, seja durante o trabalho de parto, seja na hora do expulsivo
  • Rompimento artificial da bolsa
  • Anestesia
  • Força conduzida
  • Posição de litotomia (frango assado, posição ginecológica, muitas vezes até com as pernas AMARRADAS nas perneiras)
  • Manobra de Kristeller
  • Episiotomia (aaaaaai! o pique! uma mutilação vaginal sem função que já teve sua necessidade derrubada em 1985 e até hoje fazem em TODAS – ou quase todas, e o pior, sem pedir autorização, simplesmente cortam. Isso é crime! é lesão corporal!)
  • puxar o bebê pra fora depois que a cabeça sai
  • Clampeamento imediato do cordão

A partir daí, a gente separa os procedimentos em duas linhas: procedimentos pós parto imediato que a mãe sofre e os procedimentos ao qual vão submeter o pobre recém nascido.

Com a mãe Com o bebê
Tração do cordão umbilical Tapa ou esfregões para chorar
Massagem uterina Aspiração das vias aéreas
Toque retal Sonda oral e anal
Injeção de ocitocina (se já não estiver tomando no soro, of course) Colírio (credê)
Episiorrafia (se sofreu episiotomia ou se houve laceração) Injeção de Vitamina K
medir
pesar
banhar
levar para berço aquecido, berçário ou qualquer forma de privação da companhia materna sem motivo que justifique
Soro glicosado ou mamadeira com suplemento

Por hora, é o que lembro. Deixando claro que alguns dos procedimentos podem até ser úteis em casos específicos, o que não justifica que sejam utilizados em TODOS os casos. Outros da listinha aí de cima, minha amiga, são comprovadamente PREJUDICIAIS à saúde da mãe e/ou do bebê e ao bom andamento do parto. Então vou pela ordem e vou tentar publicar o quanto antes, por que, acredite em mim: Nove meses é muito pouco para desconstruir e reconstruir tudo o que você conhecia ou achava conhecer sobre parto e nascimento humano.