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SORINHO – Da série Rotinas do parto NORMAL: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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Se tem um ingrediente que não pode faltar na receita de uma cesária de emergência ou de um parto beeeeeem Frank, é este: o Sorinho. Quando alguém sentar do teu lado, amiga gestante, e começar a contar como foi horrível o parto, como doía, como foi diagnosticado um sofrimento fetal e foi necessária uma cesária de emergência, pergunte: e te deram sorinho? A resposta vai ser sim.

Sim, mas não dão pra todas? Dão! E este é o problema! Entrou no hospital com contrações, lá vem a enfermeira com a bandejinha, a agulha e o sorinho. Além dos problemas óbvios relacionados à falta de mobilidade por estar presa ao tal soro, o mais escabroso está por vir.

Naquele soro tem uma versão sintética da ocitocina, um hormônio que os mamíferos produzem na hora do parto (e em outros momentos da vida também) e que, no caso das mulheres, faz com que o útero se contraia. Isso assim, resumidamente pois, na realidade, é toda uma cascata hormonal finamente equilibrada que está envolvida no parto. Só que o hormônio sintético faz apenas isso: contrái o útero. As demais funções da ocitocina natural não são cumpridas pela sintética. Então, vamos conversar sobre tudo o que você e o bebê perdem ao receber a ocitocina sintética para acelelar o trabalho de parto (sim, acelerar, pois a fila tem que andar, você precisa desocupar o leito logo pra próxima parturiente).

Em condições fisiológicas, a ocitocina endógena (produzida pela mulher) vai produzir contrações suportáveis, tanto para a mãe quanto para o bebê. Suportáveis em intensidade, duração e intervalos. Quando a ocitocina sintética chega pra acelerar o processo, aumenta a força da contração, o que significa mais intensidade dolorosa. Ela também aumenta a duração da contração ou seja, mais dor, por mais tempo. Como se não bastasse, ela diminui o intervalo entre as contrações, que seria o tempo que você teria para se reestabelecer e se preparar entre uma e outra contração.  Ao entrar em sua corrente sanguínea em excesso, ela satura os receptores do útero que, para se proteger contra uma super contração, desativa parte dos receptores de ocitocina. Então, após o parto, quando esses receptores seriam necessários para a rápida contração uterina que evitaria a hemorragia, eles estão desativados. Assim, você tem mais chances de sofrer uma hemorragia pós parto graças a ocitocina sintética que te deram pra “ajudar” no parto. Ela também tem uma importante função comportamental. É conhecida como o hormônio do amor. Ela prepara a mãe e o bebê para o grande encontro. MAs a ocitocina sintética não produz os efeitos comportamentais esperados.

Enquanto isso, quietinho no útero, está o bebê, que vinha curtindo o trabalho de parto até então calmo e perfeitamente suportável. A ocitocina endógena tem a capacidade de ultrapassar a barreira placentária e inunda o cérebro do bebê. Lá, além do resultado comportamental, que seria de preparar o bebê para o imprinting (momento em que conhece ou deveria conhecer o rosto da mãe, com o cérebro cheio de ocitocina e sentir prazer e amor), a ocitocina teria uma função protetiva. Ela protegeria os neurônios, os mantendo em um estado de stand by, uma espécie de transe, onde o consumo de oxigênio seria muito reduzido, estanto portanto, preparado para os períodos de hipóxia previstos no parto, para os períodos com menos oxigênio. Sem a ocitocina, quem protege esses neurônios?

Durante as contrações, o músculo uterino se aperta e a contração das fibras uterinas reduz bruscamente o fluxo sanguíneo para a placenta. Quando a contração cessa, a placenta se reabastece de sangue oxigenado, se preparando para manter o bebê bem durante a próxima contração. Ao adicionarmos a ocitocina sintética, o útero contrái muito mais, reduzindo mais ainda esse fluxo. E fica assim por muito mais tempo. E o intervalo para se reestabelecer é muito menor. É como não conseguir emergir em um mar tempestuoso. Você precisa respirar mas as ondas se sobrepõe e te impedem de sorver o ar. É exatamente isso que o bebê sente.

E aí vem o diagnóstico: sofrimento fetal. Preciso dizer que foi fabricado? Será que ninguém vê? Estamos submetendo mães e bebês a uma situação de risco assim, deliberadamente, por que é “rotina”.

Se eu produzo ocitocina, por que injetam uma coisa sintética similar, mas muito inferior, em minhas veias?

Para produzir Ocitocina, certas condições são necessárias. É preciso ocorrer o que se chama de apagamento cortical, que seria a desativação da parte cerebral responsável pela consciencia e raciocinio, deixando que o cérebro primitivo trabalhe. Mas para isso, é preciso que haja pouca luz, temperatura agradável, silêncio, carinho, respeito, amor, entrega, confiança. Tudo o que não tem em um hospital.

A preocupação vai além. O obstetra francês Michel Odent condena duramente o uso de ocitocina sintética e fala que teme sim pelo futuro da humanidade, um futuro feito por pessoas que ou não tiveram contato com a ocitocina no nascimento por terem sido extraídos antes de sequer entrarem em trabalho de parto ou por pessoas que foram privadas da ocitocina endógena por terem nascido de partos induzidos com ocitocina sintética. Questiona-se o resultado dessa privação, na futura capacidade dessas pessoas de sentir prazer e de amar.

Eu também tenho medo.

 

Para saber mais:

A Cientificação do Amor – Michel Odent

http://guiadobebe.uol.com.br/sistema-hormonal-do-parto/

www.youtube.com/watch?v=rBnHkoRN6kE

http://vilamamifera.com/mamiferas/ocitocina-sintetica-x-ocitocina-natural/

http://www.artigos.etc.br/consequencias-causadas-pela-aplicacao-de-ocitocina-na-inducao-de-partos.html