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Imobilização: da série Rotinas do parto “normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda

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fotos-de-parto-normal

Olá, gente! Vamos continuar nossa série sobre rotinas hospitalares do parto Normal? O próximo item da lista é a restrição de movimentos que ocorre na maior parte dos hospitais. Os motivos alegados são muitos, desde falta de espaço, privacidade da parturiente no leito ao lado, até necessidade de ficar parada por causa de exames ou aparelhos. Em alguns hospitais, não há restrição específica sobre a deambulação durante o trabalho de parto (fora a cara feia das enfermeiras achando que você está atrapalhando ali no meio do corredor). Porém, na hora do expulsivo, a mulher é conduzida para a sala de parto e lá é colocada deitada, de costas, com as pernas em perneiras, muitas vezes amarradas. Vamos falar sobre os problemas da imobilização em ambos os casos e das vantagens de estar em movimento ou com liberdade para escolher a melhor posição (calma, não significa ficar na esteira o trabalho de parto inteiro, rsrs).

caminhando para o parto normal

Dilatação e gravidade: o caminho é para baixo!

Como o colo do útero dilata? Na verdade ele dilata através de uma tração das bordas do colo, promovida pelo encurtamento das fibras da parede do útero, além do estímulo mecânico da cabeça do bebê, empurrada contra o colo pelo fundo uterino. Existe uma força amiga, natural e incrível chamada força da gravidade. Ela puxa os corpos para baixo. Se você está em posição verticalizada (de pé, sentada, acocorada, de joelhos) o caminho do bebê é exatamente este, para baixo. Assim, além da força das contrações, ganhamos uma aliada, a universal força da gravidade! Consequentemente, a força resultante sobre o colo é maior logo, é de se esperar e compreender que a dilatação ocorra mais rápido. E deitada? Deitada ela empurra teu bebê na direção das tuas costas. Opa! Caminho errado!

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Não só errado como perigoso. Por trás do útero passam os grandes vasos que trazem o aporte sanguíneo para a placenta. É por estes grandes vasos que o oxigênio vem para o bebê no útero. Ao deitar, a gravidade empurra o peso do bebê e do útero sobre esses vasos, causando uma compressão dos mesmos, o que irá reduzir o fluxo sanguíneo.

Menos sangue = menos oxigênio para o bebê = variações nos batimentos cardíacos = sofrimento fetal

Daí decorrem diversas complicações, novamente fabricadas, nesse caso, pela posição nada inteligente que é ficar deitada: dilatação mais lenta, coloca ocitocina! Ocitocina sintética intensifica as contrações, reduz a oxigenação, como já conversamos no post sobre o sorinho. Mas o sorinho também altera os batimentos cardíacos fetais! E o peso do útero nos grandes vasos também! Coloca no Cardiotocógrafo pra monitorar e assim a mulher vai ficando cada vez mais imobilizada e soterrada por equipamentos para monitorar e corrigir o que a própria imobilização causou. Além de tudo, pelos relatos e pela minha experiência, a posição mais incômoda para se ficar em trabalho de parto é justamente deitada! Além de doer mais (muito, muito mais para mim, beirando o insuportável, ao passo que em posições verticais era completamente aceitável), o volume e peso uterinos comprimem o diafragma, músculo responsável pela respiração, o que pode causar falta de ar, tontura e ah! Claro! Falta de oxigenação para o bebê, que respira, afinal, graças aos pulmões da mãe.

SE eles conseguirem chegar ao período expulsivo sob essas condições, antes de um diagnóstico de sofrimento fetal agudo (ou melhor, batimentos cardíacos fetais não tranquilizadores) e indicação de cesariana, vamos para o próximo item.

A expulsão: para baixo e além!

Chegou a hora de expulsivo. O bebê vai nascer. Talvez vocÊs tenham superado todas as adversidades citadas acima (a natureza é realmente incrível e consegue se superar mesmo com tanta gente atrapalhando, não é mesmo?). Você sabe tudo o que acontece com os ossos do quadril, a movimentação da cabeça do bebê, todo o incrível mecanismo que tem dado tão certo ao longo de mais de 10000 anos de história humana na terra?

perceba como é um movimento natural, a favor da gravidade   X   Note com de C para D o bebÊ precisa subir, movendo-se contra a gravidade

Ao término da dilatação, vagina e útero formal um túnel contínuo. A cabeça do bebê e seus ossinhos móveis e flexíveis (graças às moleirinhas ou fontanelas) vem descendo, de ladinho, mergulhando na bacia da mãe. Aí ele vai girando e se arrumando de forma que a nuca do bebê vai se encaixar no ossinho do púbis da mãe, aquele ossinho que fica bem ali sob os pelos pubianos. Justamente ali o canal vaginal faz uma curvinha para frente. Na parte de trás do quadril estã o sacro e o cóccix, que compõe o finalzinho da nossa coluna vertebral e também se curvam pra frente. Habitualmente, esses ossos são fixos, imóveis, não são articuláveis, assim como a sínfise púbica, que é a parte central do ossinho da frente. MAs na gestação, sob ação de um hormônio chamado relaxina, essas articulações adquirem mobilidade! Não é genial? Quando o bebê, com a nuca encaixada no púbis flexiona a cabecinha para trás, usa esse ossinho como apoio para uma alavanca que o vai empurrar para fora! Ao mesmo tempo, para facilitar a passagem dele, o cóccix se flexiona para trás! Simples assim: www.youtube.com/watch?v=bHIIxpw3tzY Então olha só, quanta coisa envolvida pra ajudar o bebê a sair:

  1. A alavanca da nuca do bebê x púbis materno
  2. A flexão do cóccix para trás
  3. A contração do útero
  4. A força da gravidade

Estudos radiológicos do início do século passado demonstraram que há um aumento de 20% no tamamanho do vão central da bacia da mulher quando esta está de cócoras. Mas, a despeito de tudo o que a natureza trabalhou para desenvolver, a parturiente entra na sala de parto e a deitam de costas. Pra completar o desconforto, colocam as pernas dela para cima e muitas vezes, amarram. Essa posição impede que muita coisa aconteça. Impede que ocorra a flexão do cóccix, impede que haja ajuda da gravidade (e de fato, nesta posição ela atrapalha pois além de promover a compressão dos grandes vasos que citamos antes, vai ser uma força a mais para o bebê vencer pois o canal vaginal, projetado para frente, nessa posição fica para cima, fazendo com que o bebê tenha que subir para depois sair!), impede que a mulher veja, toque, ampare, pegue seu filho ao nascer, promove maior pressão contra a parte posterior do períneo (ao invés de distribuí-la uniformemente por todo o assoalho pélvico) favorecendo lacerações. Então. POR QUE DEITAM A MULHER AFINAL?

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Ué, gente, pra facilitar o trabalho do médico. Assim, deitadinha, perninhas amarradas bem abertinhas, é muito mais fácil pra ele, o médico, o protagonista, o cara que FAZ o parto, ficar confortavelmente sentadinho em um banquinho assistindo de camarote o milagre da vida acontecer APESAR de tudo o que fazem para atrapalhar. E não só isso. Como é ele quem FAZ, precisa ajudar o evento, superando as dificuldades CRIADAS através de intervenções invasivas, violentas e na maior parte das vezes, desnecessárias. Pra ajudar o útero a empurrar o bebê, a barriga da mulher é pressionada em uma manobra perigosa e violenta chamada Kristeller, enquanto a equipe em coro ordena aos gritos que a mulher faça força (afinal, é só isso o que precisa fazer e nem isso faz direito). Para tirar logo o bebê do canal vaginal assassino, pois ele está com pouca oxigenação, usam o fórceps. Para PROTEJER o períneo sobrecarregado pela pressão da ocitocina, da posição inadequada, da força conduzida e do kristeller, CORTAM a vagina de TODAS as mulheres que parem por suas mãos. Depois concertam os estragos, costurando direitinho e se for bem machista, ainda vai fazer uma piadinha sem graça sobre um pontinho a mais para garantir que o playgroud do maridinho volte pra casa novinho em folha. Ufa! Parto feito, missão cumprida.

E na maca, uma mulher jaz em pedaços, violada, violentada, ferida. MAs o prêmio está em seus braços. Seu bebê é saudável, portanto, “pare de reclamar e fique feliz. E agradeça ao doutor, que salvou sua vida e a de seu bebê. O que seria de vocês sem ele?”. Assim elas se calam e abafam a dor, sem serem compreendidas, sem que o mundo perceba que ela teve seu momento roubado.

A OMS recomenda que se estimule a livre movimentação durante o trabalho de parto e durante o período expulsivo. E classifica a posição de litotomia de rotina como ineficaz, prejudicial e que deveria ser eliminada. Afinal, por que continuamos permitindo que nos deitem?

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