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Rompimento artificial da bolsa–da série Rotinas do parto “normal”: o que eles fazem por você que mais atrapalha do que ajuda.

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Sim, eu sei. Eu sumi. Mas meu ultimo semestre foi bem agitado. Mas lembro do blog todos os dias. Eu já estou de 23 semanas do terceirinho, quem vem é o Felipe. E quando o projeto Rotinas do Parto Normal começou ele era apenas vaga idéia! A boa notícia é que, a pessoa que me inspirou a começar essa série deu à luz uma linda menina, de parto natural, no hospital divina Providência em Porto Alegre! Parto lindo, sem lacerações e o principal, ela adorou!

 

saco_amniotico

Fonte: http://bebeatual.com/artimg/saco_amniotico.jpg

 

Conforme as Recomendações da OMS para atendimento ao parto natural, o uso rotineiro de amniotomia precoce durante o início do TP está no grupo C – Condutas frequentemente utilizadas de forma inapropriadas.

Eu pensei em começar com uma descrição detalhada da bolsa amniótica e suas funções. Mas achei este post da Adele Doula que é super esclarecedor e tem ótima imagens! Então vou manter o foco no intervenção em si, no rompimento artificial da Bolsa. Leia com atenção. E note, bolsa é uma anexo embrionário distinto de placenta. O bebê fica dentro da bolsa. Ela contém o líquido amniótico. A placenta liga o bebê ao útero. O bebê não está dentro da placenta. Ele fica na outra extremidade do cordão umbilical.

Primeiro vamos recordar que, no imaginário popular, os partos começam com uma enxurrada da bolsa rompendo. Na verdade, não é exatamente assim. A maioria das mulheres entra em trabalho de parto sem que a bolsa se rompa. Esta irá romper-se durante o TP, à medida que o colo dilata. Outras teram o rompimento da bolsa e não sentirão contrações (essa, aliás, é uma desculpinha esfarrapada pra cesárea). Mas a maioria entrará em TP nas horas seguintes. Outro extremo é quando a bolsa não rompe e o bebê nasce dentro da bolsinha, empelicado. Era sinal de sorte isso, no tempo das nossas bisavós.

Ai eu pergunto… se nasce na bolsa, pra que romper? Beeeeem, há quem diga que romper a bolsa abrevia a duração do trabalho de parto. Há quem diga que as contrações ficam mais intensas. Mas, pra que abreviar o trabalho de parto, se estiver tudo bem (além de desocupar o leito para a próxima, por que a fila anda…)?

Poderiam romper para constatar a presença de mecônio, mas existem instrumentos que permitem esta observação com a bolsa intacta. Ademais, se os batimentos cardiacos fetais estiverem bem, pra que espiar se tem ou não mecônio, já que o problema da presença de mecônio seria justamente um quadro de hipóxia fetal, que seria caracterizado prioritariamente pelas alterações nos batimentos?

Porém, como é quase impossível que em um atendimento convencional a equipe esteja ali e não faca nada, romper a bolsa é uma das intervenções favoritas. Ok, e qual o problema em romper, se ela romperia naturalmente (ou não ) durante o TP?

Uma das principais funções da bolsa é impedir a entrada de microorganismos patogênicos no ambiente uterino, evitar que estes tenham contato com o bebê. Uma vez rompida, o bebê ficaria mais suscetível (assim, ficam ainda menos recomendados os exames de toque e, caso sejam executados, muito cuidado com a higiene para não servir como vetor). A outra é absorção de impacto. Assim, há quem diga que sentiu mais intensamente os movimentos do bebê e as contrações após o rompimento (no meu caso, não acho que tenha mudado muito, não lembro de doerem mais por isso, mas também a bolsa rompeu já no expulsivo, quando as contrações não costumam mais ser dolorosas). Além de tudo, o líquido ajuda a evitar a compressão do crodão entre o corpo do bebê e as paredes uterinas, diminuindo a chance de alterações dos batimentos cardíacos fetais. Mas o principal perigo é de ocorrer o temido prolapso de cordão. E este perigo é maior quando o bebê está “alto”.

Bem, esta é uma das verdadeiras emergências obstétricas, uma das poucas indicações verdadeiras para cesariana. Ocorre quando uma alça do cordão umbilical sai do útero, entrando no canal vaginal antes do bebê. É extremamente complicado por que se a cabeça do bebê entrar também, vai comprimir essa alça de cordão e cortar o fluxo sanguíneo que nutre e oxigena o feto. No blog da Obstetra Melânia você encontra mais informações sobre como este procedimento é feito de maneira errada e sem indicação.

O procedimento em si é indolor e é utilizado um instrumento comprido com um ganchinho na ponta para proceder o furinho. No meu primeiro parto, quando minhas contrações pararam, eu pedi que o médico rompesse minha bolsa. Mal sabia eu que era apenas o momento em que meu corpo estava se recuperando, resgatando energias para o expulsivo. Deu tudo certo, não tivemos problemas, mas depois eu fiquei pensando na necessidade daquilo. Pra que romper a bolsa? No segundo ela rompeu sozinha, já no auge do TP.

Tá, Cynara… Mas e quando a bolsa rompe antes, é o que costumam chamar de parto seco? Então… Na verdade parto seco não existe. Porque o líquido amniótico continua sendo produzido (aliás, boa parte desse líquido é composta pela urina do próprio feto).

Era isso. Espero ter ajudado. Você pode incluir essa questão do rompimento das membranas amnióticas no seu plano de parto e conversar sobre isso com sua equipe, para deixar claro quais são as circunstâncias em que eles costumam fazer e em quais delas você aceitaria o procedimento (ou não).

“Não existe evidência de que a amniotomia praticada durante o trabalho de parto esteja relacionada à abreviação do período de dilatação. Embora alguns estudos observem redução da duração do trabalho de parto, outros, de semelhante força de evidência, não observam tais achados.”

http://www.projetodiretrizes.org.br/ans/diretrizes/assistencia_ao_trabalho_de_parto.pdf

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